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terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Jaime Cortesão


JAIME CORTESÃO
[Ançã/Cantanhede, 1884 - Lisboa, 1960]



Notável vulto da nossa cultura, político, historiador, poeta - que Fernando Pessoa, em carta particular, considerou "o primeiro dos poetas da novíssima geração" -, Jaime Cortesão licenciou-se em Medicina em 1909, com uma tese de licenciatura sobre o tema Arte e Medicina. Ainda estudante, em 1907, funda a revista Nova Silva com Leonardo Coimbra, Cláudio Basto e Álvaro Pinto. A partir de 1910 participa com Teixeira de Pascoaes no movimento iniciado com a revista A Águia, ampliado mais tarde, em 1911-1912, com as reuniões, em Coimbra, de um grupo de intelectuais que lança as bases do movimento "Renascença Portuguesa" e do qual Jaime Cortesão também fez parte, dirigindo o seu boletim A Vida Portuguesa, Porto, 1912 e seguintes. Viria ainda a ser um dos fundadores da revista Seara Nova (1921). Foi professor, no Porto, entre 1911 e 1917, tendo participado na Primeira Guerra Mundial (Flandres) como capitão-médico voluntário. Deste tempo passado em combate legou-nos as Memórias da Grande Guerra. De 1919 a 1927 foi director da Biblioteca Nacional, tendo-se, nesto último ano, exilado para o estrangeiro (Espanha, França, Bélgica, Ingtaterra). A partir de 1940 foi viver para o Brasil, aí continuando os seus notáveis trabalhos históricos, a que dera início por volta de 1922. No Brasil, onde teve a seu cargo, no Rio, logo após a chegada, a regência de cursos universitários sobre a história dos Descobrimentos, foi também encarregado, entre outras tarefas, de organizar, em 1944, um curso de história da cartografia do Brasil, destinado a diplomatas. Em 1952, foi da sua responsabilidade a organização da Exposição Histórica de São Paulo, por altura da celebração do quarto centenário da fundação daquela cidade. Em 1957 regressa definitivamente a Portugal, pouco depois de lhe ter sido concedido o título de"cidadão benemérito" de São de Paulo, em homenagem ao seu trabalho para a Exposição Histórica. Em 1958, com 74 anos, é preso no Forte de Caxias, juntamente com António Sérgio, Vieira de Almeida e Azevedo Gomes, tendo sido solto depois de uma forte campanha de indignação e protesto por parte da imprensa brasileira. Assumindo naturalmente o estatuto de mentor intelectual e moral da oposição portuguesa, é-lhe proposto candidatar-se à Presidência da República, honra que declina. Dedicando-se de novo, com empenho e quase voracidade, aos seus trabalhos históricos, vem a falecer em 14 de Agosto de 1960, com 76 anos. Hoje mais conhecido pelos seus trabalhos históricos, Jaime Cortesão começou, no campo da literatura, por ser poeta - um poeta injustamente pouco conhecido. "A vida tumultuosa de Jaime Cortesão", observou, com justiça, David Mourão-Ferreira, "a sua ausência de Portugal durante mais de quarto de século, a esplendorosa afirmação da sua personalidade em tantos outros sectores - particularmente na historiografia, no ensaísmo, na acção política -, conjugaram-se também para o momentâneo eclipse que a sua obra de poeta tem sofrido." O seu primeiro livro, A Morte da Águia (1910), revelava desde logo, como penetrantemente notou Fernando Pessoa, "um elemento heróico". "Mas o poeta de A Morte da Águia [...]", observará ainda Mourão-Ferreira,um dos mais inteligentes e subtis estudiosos da poesia de Jaime Cortesão, "não é apenas um épico. Na sua personalidade existem igualmente um poeta lírico e um poeta dramático." Sobre a eminência do historiador, cuja atenção se focou sobre um leque muito vasto de temas, os depoimentos não faltam, vindos dos mais variados sectores. Vitorino Nemésio, por exemplo, dizia dele: "Dos poucos que verdadeiramente contam na história da vida espiritual portuguesa, Jaime Cortesão é um dos mais genuinamente ilustres, e decerto o maior historiador. O seu primado, nesse campo, ergue-se mesmo acima de limites de geração e de moda, situando-se na alta linhagem dos nossos escritores de história." O depoimento de Vitorino Magalhães Godinho não é menos enfático: "No primeiro plano da historiografia portuguesa do século XX destaca-se [...] a figura de Jaime Cortesão. Médico de formação, poeta de temperamento e estilo, tem o agudo sentido de uma problemática universal, sabe visionar o luso império no seu conjunto e desvendar os fios que o prendem ao que se desenrola nos quatro continentes e nos três oceanos, e arrogadamente galga sobre os documentos, que conhece como ninguém, para arquitectar hipóteses sedutoras e provocantes como reptos [...]." Era filho do filólogo António Augusto Cortesão e irmão do historiador e cartógrafo Armando Cortesão.

in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. III, Lisboa, 1994

Augusto Abelaira


AUGUSTO ABELAIRA
[Ançã, 1926 - Lisboa, 2003]

Romancista, dramaturgo e tradutor. Passou a infância nos Açores. Licenciou-se em Histórico-Filosóficas em Lisboa. Exerceu o magistério por algum tempo e dedicou-se, depois, ao jornalismo, tendo sido director da Seara Nova e da Vida Mundial e cronista de O Jornal e do JL. No âmbito da chamada geração de cinquenta (Augusto Abelaira, José Cardoso Pires, Fernanda Botelho, Urbano Tavares Rodrigues), a obra de Augusto Abelaira é um exemplo da tranferência do carácter documental, do espaço e personagens rurais e da crença num devir histórico de emancipação - que enformavam o neo-realismo dos anos quarenta - para uma mais aguda consciência da literatura como arte de escrita, para um espaço e personagens urbanos e para uma atitude interrogativa sobre a teleologia da história. Distanciamento crítico e até autocrítico a que não será estranho o furtar das expectativas nascidas do pós-guerra, o conhecimento de algumas das vicissitudes da "socialismo real" e o encontro com o existencialismo. É precisamente de uma juventude a braços com a fatalidade das suas ilusões frustradas, e que oscila aí entre um pessimismo metafísico e um optimismo hipotético ou de desejo histórico, que nos fala o seu primeiro romance A Cidade das Flores (1959). Enseada Amena (1966) será talvez o romance que melhor resume a primeira fase da obra de A.A., seja nos seus processos estilísticos - a construção dialogante, quase teatral, as personagens estilizadas, de algum modo mais pensantes que viventes, a complexificação temporal -, seja na fixação da sua problemática: a interrogação pelo sentido da história, do quotidiano, da arte, do amor e da morte. É disso que falam incessantemente as personagens deste romance, e o problema da sua má-consciência advém do facto de apenas falarem. Impossibilitadas de agirem politicamente, mas duvidando também de qualquer dimensão utópica de resistência, acabam por renunciar à acção e conformar-se ao auto-retrato do protagonista: um bípede céptico e desinteressado. Entregues assim a um quotidiano vazio, onde se sentem viver por interpostos costumes e valores, mas não podendo renunciar ao apelo quase biológico da Aventura, as personagens abelairianas acabam por descobrir que o único plano de Acontecimento que lhes está ao alcance é o erótico-sexual - daí o seu don juanismo, ainda que auto-irónico, e a consequente problematização do casamento, que atinge em Bolor (1968) um nível de reflexão único na nossa literatura. O 25 de Abril liberta A.A. da necessidade de um compromisso político em última instância, de modo que a sua crítica do demissionarismo translada-se agora a um plano mais decididamente filosófico, volvendo-se meditação sobre o impasse civilizacional em que vivemos. Depois de o rastrear e reconhecer em Sem Tecto, Entre Ruínas (1978), os romances seguintes tentam circunscrevê-lo segundo uma estratégia que oscila, e muitas vezes combina, o lúcido e o lúdico. Isto é, por um lado sabe-se que a vida não tem sentido e no entanto continua-se a procurá-lo, sabe-se que talvez nada justifique o escrever romances e no entanto continua-se a escrevê-los; por outro, supera-se o que de demasiado agónico poderia existir nessa lucidez, através do riso e do jogo, carnavalizando os saberes e a literatura. Foi tradutor de elevado nível, p.e. em A História do Mundo, de Jean Duché, na qual preserva cuidadosa e sabiamente a ironia do autor. Foi presidente da Associação Portuguesa de Escritores.

in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. V, Lisboa, 1998

"Um palmo de estante"


CARLOS DE OLIVEIRA
[Belém do Pará/Brasil, 1921 - Lisboa, 1981]

A reduzida extensão da obra de Carlos de Oliveira – «um palmo de estante», como escreveu Mário Dionísio – é inversamente proporcional à sua importância no panorama literário português do século XX. Poeta e romancista, mas também cronista, crítico e tradutor, despertou para a escrita no seio da geração dos neo-realistas, em Coimbra. Através de um sólido trabalho de depuração e perfeccionismo, desenvolveu um estilo e uma consciência poética ímpares, que lhe valeram unânime reconhecimento pelos seus contemporâneos.

Filho de emigrantes portugueses, Carlos Alberto Serra de Oliveira nasceu no Brasil, em Belém do Pará, a 10 de Agosto de 1921. No Brasil só viveu os dois primeiros anos de vida: em 1923, os seus pais regressam a Portugal, acabando por se fixar na região da Gândara, concelho de Cantanhede, mais precisamente na aldeia de Febres, onde seu pai exerceu medicina.

Em 1933, Carlos de Oliveira parte para Coimbra, onde completa os estudos liceais e universitários, concluindo em 1947 a sua licenciatura em Ciências Histórico-Filosóficas, com uma tese que denominou de Contribuição para uma estética neo-realista. No ano seguinte, o escritor ruma a Lisboa, onde passará a viver. Mantém colaborações esporádicas em vários jornais e revistas, e chega a tentar o ensino. A partir de 1972 dedica-se definitiva e exclusivamente à literatura.

A arte e a personalidade deste autor foram profundamente marcadas por três vectores fundamentais: a sua infância num meio pobre, rural e isolado (a Gândara); uma perspectiva que, embora marxista na forma de ver a Economia como motor da História, não seria redutora, porque se manteve aberta a todos os aspectos da relação do homem com o mundo; e a ditadura e censura salazaristas. O primeiro ditou-lhe os alicerces geológicos da sua escrita, num cenário omnipresente, e referências pontuais ao imaginário infantil; o segundo permitiu-lhe não se circunscrever, apenas, à perspectiva neo-realista; o terceiro valeu-lhe ser caracterizado como «pessimista», mas uma análise mais profunda revela, antes, uma consciência da fatalidade por parte de um grande humanista.

A maior parte da sua obra em prosa foi publicada entre 1943 e 1953: Casa na Duna, Alcateia, Pequenos Burgueses e Uma Abelha na Chuva, este último tornado clássico de leitura obrigatória nos programas escolares até final da década de 90. Só voltaria a publicar um romance em 1978, o aclamado Finisterra: paisagem e povoamento, canto do cisne e ajuste de contas com a memória, misterioso término de um quinteto de romances com a “sua” Gândara como pano de fundo progressivamente esbatido. Finisterra, devido à sua ousada forma “quebrada” e poética, gerou alguma polémica intelectual quanto à sua catalogação como romance mas, de uma maneira geral, foi considerado uma obra renovadora do romance português contemporâneo.

De igual modo, na poesia, Carlos de Oliveira é considerado um inovador, comprometido apenas com a sua própria disciplina poética. Na arte poética deste autor, Fernando Gil vê a «necessidade de explicar o modo como a linguagem e a realidade se confrontam e conjugam» e Eduardo Prado Coelho destrinça-lhe, como «fantasma dominante», o «desejo de habitar a interioridade da matéria». Entre Turismo (1942) e Pastoral (1977), Oliveira orquestrou uma evolução segura, trilhando laboriosamente um caminho de apuro estético, na busca quase mística da palavra certa, na concentração do mais denso significado na brevidade do texto e na reflexão sobre o próprio processo de escrita. O livro de poemas Cantata, publicado em 1960, viria a ser considerado um marco divisório na poesia de Carlos de Oliveira e os quatro livros de poesia que se seguiram tornaram-se, inquestionavelmente, obras de referência na poesia portuguesa contemporânea.

Além das obras de poesia e de ficção, há que assinalar O Aprendiz de Feiticeiro, um livro que reúne textos de carácter diverso, no qual o escritor se revela, a si e à sua escrita, observando-se e analisando as suas próprias motivações. É neste livro que melhor se percebe, como traço marginal mas dominante em toda a escrita de Carlos de Oliveira, uma consciência da sua própria obra como um todo em (re)construção, tarefa que implica permanentes supressões e reformulações do edifício literário, em nome da coerência interna. Segundo Alexandre Pinheiro Torres, a evolução literária de Oliveira foi ganhando em poder de criação aquilo que perdeu em peso informativo, algo que transparece claramente numa análise da reescrita que as suas publicações foram sofrendo até à data da morte do escritor, em 1981.



Centro de Documentação de Autores Portugueses
04/2005