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quarta-feira, 16 de abril de 2008

23 DE ABRIL DIA MUNDIAL DO LIVRO


O LIVRO



Aqui
Tudo é permitido
Até sonhar
Posso morrer
E acordar
Posso tudo
Até ser rei
E beber, beber
Sem me embriagar
Aqui é tudo permitido
Ser vento
Recordação
Subir nu a uma nuvem
E desfazer-me em flocos de neve
Ser música
E embalar-te na íris do meu olhar
Aqui
Tudo é permitido
Seres minha
Rainha
Dançar
Posso ser tudo
E tu também
Aqui
Tudo
É permitido
Até chorar!
Viajo sem cessar
Aqui
Além
Para lá do horizonte
Aqui
Neste livro
Não estou só!
Sou eu
Sou muitos.


José Vieira
16 de Abril de 2008

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

1855 - Cesário Verde



Nas nossas ruas, ao anoitecer,

Há tal soturnidade, há tal melancolia,

Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia

Despertam-me um desejo absurdo de sofrer



Poeta português, natural de Caneças, Loures, oriundo de uma família burguesa abastada. O pai era lavrador (tinha uma quinta em Linda-a-Pastora) e comerciante (estabelecido com uma loja de ferragens na baixa lisboeta). Foi por essas duas actividades práticas, úteis, de acordo com a visão do mundo do próprio Cesário Verde, que se repartiu a vida do poeta. Paralelamente, ia alimentando o seu gosto pela leitura e pela criação literária, embora longe dos meios literários oficiais com que nunca se deu bem, o que o levou, por exemplo, a abandonar o Curso Superior de Letras da Faculdade de Letras de Lisboa, que frequentou entre 1873 e 1874. Cesário Verde estreou-se, nessa altura, colaborando nos jornais Diário de Notícias, Diário da Tarde, A Tribuna e Renascença. A partir de 1875 produziu alguns dos seus melhores poemas: «Num Bairro Moderno» (1877), «Em Petiz» (1878) e «O Sentimento dum Ocidental» (1880). Este último foi escrito por ocasião do terceiro centenário da morte de Camões e é, ainda hoje, um dos textos mais conhecidos do poeta, embora mal recebido pela crítica de então, numa incompreensão geral mesmo por parte de escritores da Geração de 70, de quem Cesário Verde esperaria aceitação para a sua poesia. A falta de estímulo da crítica e um certo mal-estar relativamente ao meio literário, expressos, por exemplo, no poema «Contrariedades» (Março de 1876), fazem com que Cesário Verde deixe de publicar em jornais, surgindo apenas, em 1884, o poema «Nós». O binómio cidade-campo surge como tema principal neste longo poema narrativo autobiográfico, onde o poeta evoca a morte de uma irmã ( 1872) e de um irmão (1882), ambos de tuberculose, doença que viria a vitimar igualmente o poeta, apesar das várias tentativas de convalescença numa quinta no Lumiar. Só em 1887 foi organizada, postumamente, por iniciativa do seu amigo Silva Pinto, uma compilação dos seus poemas, a que deu o nome de O Livro de Cesário Verde (à disposição do público em geral apenas em 1901). Dividida em duas secções, Crise Romanesca e Naturais, o livro não seguiu qualquer critério cronológico de elaboração ou de publicação. Entretanto, novas edições vieram acrescentar alguns textos à obra conhecida do poeta e organizá-la segundo critérios mais rigorosos. Formado dentro dos moldes do realismo e do parnasianismo literários, Cesário Verde afirmou-se sobretudo pela sua oposição ao lirismo tradicional. Em poemas por vezes cínicos ou humorísticos (na linha de A Folha, de João Penha, ou de Baudelaire, de que se reconhece a influência sobretudo no tratamento da temática da cidade, do amor e da mulher) conseguiu manter-se alheio ao peso da «literatura», procurando um tom natural que valorizasse a linguagem do concreto e do coloquial, por vezes até com cariz técnico, marcando um desejo de autenticidade e um amor pelo real, que fez com que a sua poesia enfrentasse, por vezes, a acusação de prosaísmo. Com uma visão extremamente plástica do mundo, deteve-se em deambulações pela cidade ou pelo campo (seus cenários de eleição) transmitindo o que aí era oferecido aos sentidos, em cores, formas e sons, de acordo com a fórmula do próprio poeta, expressa em carta ao seu amigo Silva Pinto: «A mim o que me rodeia é o que me preocupa». Se, por um lado, exaltava os valores viris e vigorosos, saudáveis, da vida do campo e dos seus trabalhadores, sem visões bucólicas, detinha-se, por outro, na cidade, na sedução dos movimentos humanos, da sua vibração, solidarizando-se com as vítimas de injustiças sociais e integrando na sua poesia, por vezes, um desejo de evasão. Conhecido como o poeta da cidade de Lisboa, foi igualmente o poeta da Natureza anti-literária, numa antecipação de Fernando Pessoa/Alberto Caeiro, que considerava Cesário um dos vultos fundamentais da nossa história literária. Através de processos impressionistas, de grande sugestividade (condensando e combinando, por exemplo, sensações físicas e morais num só elemento), levou a cabo uma renovação ímpar, no século XIX, da estilística poética portuguesa, abrindo caminho ao modernismo e influenciando decisivamente poetas posteriores.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Estranho é o sono que não te devolve.


Estranho é o sono que não te devolve.

Como é estrangeiro o sossego

de quem não espera recado.

Essa sombra como é a alma

de quem já só por dentro se ilumina

e surpreende

e por fora é

apenas peso de ser tarde.

Como é

amargo não poder guardar-te

em chão mais próximo do coração.


Daniel Faria

de Explicação das Árvores e de Outros Animais1998

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Se me puderes ouvir


O poder ainda puro das tuas mãos

é mesmo agora o que mais me comove

descobrem devagar um destino que passa

e não passa por aqui

à mesa do café trocamos palavras

que trazem harmonias

tantas vezes negadas:

aquilo que nem ao vento sequer

segredamos

mas se hoje me puderes ouvir

recomeça, medita numa viagem longa

ou num amor

talvez o mais belo

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Dia de Natal

Hoje é dia de ser bom.É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,de falar e de ouvir com mavioso tom,de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.É dia de pensar nos outros — coitadinhos — nos que padecem,de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.Comove tanta fraternidade universal.É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,como se de anjos fosse,numa toada doce,de violas e banjos,entoa gravemente um hino ao Criador.E mal se extinguem os clamores plangentes,a voz do locutoranuncia o melhor dos detergentes.De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu e as vozes crescem num fervor patético.(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar. E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimentoe compra — louvado seja o Senhor! — o que nunca tinha pensado comprar.Mas a maior felicidade é a da gente pequena.Naquela véspera santa a sua comoção é tanta, tanta, tanta,que nem dorme serena.Cada menino abre um olhinho na noite incerta para ver se a aurora já está desperta.De manhãzinha,salta da cama,corre à cozinhamesmo em pijama. Ah!!!!!!!!!!Na branda maciezada matutina luzaguarda-o a surpresado Menino Jesus. Jesus o doce Jesus,o mesmo que nasceu na manjedoura,veio pôr no sapatinho do Pedrinho uma metralhadora.Que alegria reinou naquela casa em todo o santo dia!O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,fuzilava tudo com devastadoras rajadase obrigava as criadas a caírem no chão como se fossem mortas:Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.Já está!E fazia-as erguer para de novo matá-las.E até mesmo a mamã e o sisudo papá fingiam que caíam crivados de balas.Dia de Confraternização Universal,Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,de Sonhos e Venturas.É dia de Natal.Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.Glória a Deus nas Alturas.António Gedeão