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domingo, 10 de agosto de 2008

Leonel Moura


Fonte: Revista BRAVO! | Agosto/2008

Eu Robô

Na mostra ''Emoção Art.ficial 4.0'', em cartaz no Itaú Cultural, em São Paulo, uma máquina capaz de desenhar coloca a arte diante de um impasse. Até que ponto estamos dispostos a aceitar que uma obra possa ser feita com criatividade artificial?

Gisele Kato

De perto, ele não lembra em nada uma criatura amea­çadora. Com jeitão de formiga, anda de um lado para o outro do papel, pára em um ponto, volta ao anterior, segue mais um pouquinho. De repente, baixa uma de suas seis canetas coloridas e dá continuidade ao desenho cheio de traços e tons vibrantes que, devagar, toma a forma de uma pintura à Jackson Pollock (1912-1956). A associação quase imediata com o expoente do expressionismo abstrato nos Estados Unidos rendeu ao simpático e aparentemente inocente robô o nome de RAP, Robotic Action Painter ("action painting" foi o nome pelo qual ficou conhecida a escola artística baseada na pintura de Pol­lock). Destaque da mostra Emoção Art.ficial 4.0, em cartaz até 14 de setembro no Itaú Cultural, em São Paulo, o RAP é o orgulho do artista português Leonel Moura,pai da criatura — que observa à distância os gestos do filho e sorri, disposto a se surpreender. Moura assegura que seu robô não obedece a regras predeterminadas por ele. "Seu programa lhe dá plena autonomia para escolher por onde circular, o que fazer e quando parar", diz o artista. "Trata-se quase de um antiprograma." Ao fim de dois dias de trabalho, desde a abertura da exposição, o RAP decidiu que havia terminado uma obra. Poderia estar até hoje debruçado sobre a mesma peça ou ter-se dado por satisfeito logo nos primeiros minutos de criação. O desenho pronto — assinado por ele e por seu inventor — encontra-se pendurado em uma das paredes da instituição. É arte? Leonel Moura garante que sim e, ao bancar a resposta afirmativa, lança uma espécie de bomba no mundo das artes plásticas. A formiga elétrica, enfim, ameaça.

Macacos e Blade Runner

Concordar com o criador do robô-pintor significa acreditar que o conceito de arte sacramentado no início do século 20 já não tem mais tanto sentido assim. Desde 1913, quando Marcel Duchamp esboçou seus primeiros ready-made, ainda em Paris, essa definição liga-se à intenção do artista e sua idéia. Se Duchamp declarava que a roda de bicicleta era arte, a nós, espectadores, cabia aceitar. Por mais de cem anos, experimentamos uma era muito centrada no poder do autor sobre a obra. Com o RAP, Moura questiona esses valores: "Eu identifico arte com criatividade, com o fato de se fazer algo que não existia antes. Nenhum desenho ou pintura do meu robô se repete ou copia alguma coisa já vista. Ele não se submete a um conjunto de instruções. Ele cria", argumenta o artista português. "Quando eu anuncio a possibilidade da criatividade artificial, evidentemente proponho uma ruptura com a arte muito calcada no indivíduo. Confirmo que a arte pode nascer de um componente não-humano e sobre o qual eu, de fato, não tenho o menor controle." A tese de Moura é polêmica. Levada às últimas conseqüências, implica aceitar que tudo pode ser arte, bastando para isso que alguém — não só o próprio artista — assuma o julgamento. Ele provoca: "Estou disposto a reconhecer até que um chimpanzé faz arte. Minha única condição é a presença da criatividade".

Para entender bem a proposta de Leonel Moura, talvez seja mais fácil ver o universo em torno do RAP como uma espécie de escada. Segundo o artista português, o robô em si é sua obra de arte, afirmação endossada pelos críticos e pelo mercado. Em outro degrau, tem-se então o desenho ou a tela feitos pela máquina. De acordo com Moura, essas peças também são arte, realizadas em um segundo momento do processo, por sua própria criação. É esse o diagnóstico que gera controvérsias. A assinatura no papel grafada pelo robô, por exemplo, incomoda muita gente. Apesar de ser riscada pela máquina, deriva de comandos bem amarrados por Moura: o RAP não sabe escrever. Por outro lado, a hora em que ele termina o quadro e coloca o seu nome não está submetida a uma vontade humana: RAP decide quando seu trabalho pode, enfim, ser considerado pronto. Decide mesmo? Leonel Moura explica o seu "antiprograma" da seguinte forma: "Instalo no robô comandos binários como: 'Se tiver que usar uma caneta, escolha você se vai usar ou não. Se optar por usar uma, escolha você qual delas'. E assim por diante", diz ele, assegurando que faz sentido falar em um robô autônomo.

Para chegar ao RAP, que nasceu em 2006, e sacudir o paradigma em vigor desde Duchamp, Leonel Moura dedica-se à robótica há quase dez anos. Ele, que é representante da escola conceitual — em que a habilidade manual não tem mesmo muita relevância para determinar a qualidade de um artista —, sentiu que a arte contemporânea estava esgotada já na década de 1990. "Estagnamos nessa visão romantizada do autor, e a internet acabou de repente com essa possibilidade de endeusar tanto um artista. No universo dos sites, o que nos interessa é o conteúdo, não quem o colocou lá." Foi pensando assim que ele desenvolveu, com a ajuda de uma equipe de cientistas, o primeiro robô-pintor, apresentado em 2003, depois de dois anos de intensa pesquisa. O modelo inaugural lidava só com duas cores e, portanto, tinha de agir em equipe. Também não decidia o término de uma obra: em determinado momento, era desligado por Moura. Agora, em uma versão bem mais avançada, com nove olhos que funcionam como sensores, o RAP trabalha sozinho e se movimenta com mais autonomia. "Desse tipo são três irmãos. O que está agora em São Paulo e dois que moram em Nova York. Curiosamente, apesar de serem gêmeos, eles têm gênios bem diferentes. O RAP daqui usa muito mais a cor vermelha do que o irmão nova-iorquino", diverte-se Moura.

Em seu ateliê, em Lisboa, o artista vive cercado por vinte robôs-pintores. Confessa que, algumas vezes, se irrita com o comportamento da turma. Na galeria Leonel Moura Arte, inaugurada na capital portuguesa no ano passado, o artista vende as obras assinadas por eles. Sim, o aval do mercado as criaturas já conquistaram. Uma tela chega a custar US$ 10 mil, enquanto um desenho sai pela metade do preço. Leonel diz que especialistas em artes plásticas não distinguem as telas feitas por humanos das telas pintadas pelos formigões. "Com um detalhe curioso: em geral as mulheres preferem os quadros dos robôs." A maioria das peças produzidas pelo RAP aqui no Itaú Cultural, por exemplo, já tem os corredores da galeria portuguesa como primeiro destino. "As pessoas compram porque os quadros ficam realmente bonitos, mas também porque se encantam com a história dos robôs", explica Moura, que, ao contrário do que se pode imaginar, mantém as paredes de sua própria casa completamente nuas. "Acho que tem a ver com aquele ditado: casa de ferreiro, espeto de pau", brinca.

Impasse na arte

O artista paulistano Rodrigo Andrade, que estreou junto à chamada Geração 80, com pinturas em grandes dimensões e cheias de cor, está entre os que olham para o RAP com ressalvas. "Acho o robô simpático. Os desenhos são interessantes, curiosos, mas não consigo concordar inteiramente com a existência de uma máquina com liberdade de escolhas. O projeto é divertido, tem senso de humor, ironia, mas vejo o robô como um instrumento do Leo­nel Moura", diz o pintor, depois de uma visita à exposição. "Há um abuso nessa discussão sobre os limites da arte." Da mesma geração, porém dedicada às novas mídias, a também paulistana Giselle Beiguelman avalia a proposta de Moura com mais condescendência: "É uma sacada brilhante. Com o robô, ele nos alerta para essa fronteira cada vez mais híbrida entre o homem e a máquina. O que é o Projeto Genoma se não uma tradução do homem como um banco de dados?". Giselle, no entanto, se incomoda com o fato de o robô assinar a obra: "Quando o robô termina o desenho e se dirige para o canto do papel, ele volta a operar dentro das restrições impostas hoje à arte pela cultura cartesiana. O que importa é refletirmos sobre como homem, natureza e máquina se misturam nesses tempos recentes. A discussão sobre a arte do robô me parece irrelevante em relação à profundidade das perguntas que o robô em si nos coloca".

As questões levantadas pelo RAP precisam realmente de uma reflexão maior. Um dos organizadores da mostra Emoção Art.ficial 4.0, Marcos Cuzziol, concorda que entramos em um terreno ainda pouco maduro e muito deslumbrado com as possibilidades que se abriram com a chegada da internet e do computador. "O que quer dizer arte contemporânea? Para mim, o que reunimos agora é a verdadeira arte contemporânea. Mas esse conjunto não tem espaço nas coletivas dirigidas a criações em suportes mais tradicionais", analisa Cuzziol. O artista português Leonel Moura acrescenta: "Não me conformo com o termo 'arte e tecnologia' para designar o que faço. Um pincel é tecnologia. Enfim, os conceitos da nova arte estão muito vagos ainda". Isso sem falar na inexistência de um acervo dedicado a essa produção. O Itaú Cultural começou a montar um neste ano: "O armazenamento das obras desafia a instituição. Cada peça exige um cuidado específico", diz Eduar­do Saron, superintendente de atividades culturais da instituição e responsável pela coleção que, por enquanto, contabiliza 14 criações em novas mídias.

Um dos desenhos assinados pelo RAP aqui em São Paulo deve integrar o acervo em breve. Vai gerar polêmica. De novo, a criação do robô é arte? Diante de um cenário assim tão frágil, a imagem do pequeno robô ganha um sentido ainda maior. Eis um trabalho de formiga mesmo — uma formiga que, se romper com as barreiras da tradição, pode, quem sabe?, estrear uma outra era na arte.

Assista a vídeos dos robôs de Leonel Moura

Onde e Quando
Emoção Art.ficial 4.0 - Emergência!. Itaú Cultural (avenida Paulista, 149, São Paulo, SP. 11/2168-1776). De 3ª a 6ª, das 10h às 21h; sáb., dom. e feriados, das 10h às 19h. Até 14/9. Grátis.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Leonel Moura


Leonel Mouraem S. Paulo, Kaliningrad e Moscovo
Obras de Arte Robótica apresentadas nas exposições
Bienal de Arte e Tecnologia, Emoção Art.ficial Itáu Cultural, S. PauloBrasil
Contemporary Art in the Post-Biological Age National Center for Contemporary ArtsKaliningrad branchRússia
Bienal de Arte ContemporâneaMoscovoRússia
Entretanto continua a exposiçãoMade in New YorkDesenhos do robot RAPnaGaleria LEONEL MOURA ARTe

Rua da Janelas Verdes, 76, Lisboa

quinta-feira, 20 de março de 2008

Robôt português artista?


Robô português mostra primeiras obras de arte realizadas em Nova Iorque

Desde Fevereiro de 2007, que o robô RAP (Robotic Action Painter) gera composições originais, decide por si próprio quando o desenho está pronto e assina no canto inferior direito como qualquer artista humano. A performance deste robô artista tem tido lugar no Museu de História Natural de Nova Iorque, exposto na sala dedicada à evolução da humanidade , dentro de uma vitrina, em permanente actividade criativa. Os primeiros 12 desenhos deste artista robótico poderão ser vistos em Portugal, na Galeria LEONEL MOURA Arte, em Abril. De acordo com o seu criador, o artista plástico Leonel Moura, “os desenhos são abstractos e muito elementares”. “No essencial revelam uma ou mais concentrações de riscos e cores em determinadas áreas, enquanto o resto é deixado com pouca expressão pictórica”, revela o artista, acrescentando que os desenhos “fazem lembrar simples garatujas de crianças, mas também aglomerados urbanos ou galáxias”.“De qualquer modo, por muito primitiva que seja, esta criatividade é profundamente original, adianta Leonel Moura, em comunicado. Tal como sugeria Norbert Wiener, o pai da cibernética, se queremos permitir a emergência de uma criatividade das máquinas é preciso “retirar o factor humano do processo”. E RAP que se encontra a milhares de quilómetros de distância do seu criador, o qual não tem qualquer meio de o influenciar ou manipular, gera desenhos baseados na sua própria percepção do mundo.Ainda segundo Leonel Moura, “o processo criativo de RAP não é exclusivamente aleatório, ainda que este, à semelhança dos mecanismos biológicos, tenha um papel fundamental na produção de decisões”. “Há de facto, para além disso, a expressão de uma criatividade própria, através de processos descritos pelas teorias da complexidade, da auto-organização e da emergência”, continua o artista.Estamos assim perante uma das primeiras manifestações – assente numa base científica sólida – de uma criatividade produzida por uma entidade não-humana e não-natural. Estes desenhos são a expressão de uma nova revolução na arte, que abre o caminho a uma “criatividade artificial”, na sequência do que já hoje é plenamente aceite sob a designação de “inteligência artificial”.A inauguração da exposição dos primeiros 12 desenhos do RAP acontece na Galeria LEONEL MOURA Arte, dia 7 de Abril, às 21h00.Imagem: http://www.leonelmoura.com/rap.html
Leonel Moura é um dos grandes artistas deste cantinho Português. Agora não deve confundir termos que são exclusivos do Humano (Criatividade e percepção) e actividades que os robôts executam com um programa elaborado pelo artista (Humano), mesmo que esteja a quilómetros de distância. Veja-se o que fazem os satélites... arte é exclusiva do HUMANO. É isso , a ARTE o que nos diferencia dos outros seres! (José Vieira)
A resposta que Leonel Moura teve a gentileza de me enviar e que agradeço.
Obrigado pelo seu email.
É evidente que a definição de um conceito pode determinar os limites do mesmo. Quando diz que a arte é uma actividade exclusiva do humano, está tudo dito e implica que não se pode considerar arte a produção animal ou de máquinas. No entanto se há algo que caracteriza o pensamento moderno, e acima de tudo a própria arte, é precisamente a ampliação das fronteiras conceptuais. Basta recordar que, até há pouco, também a inteligência era uma qualidade exclusiva dos humanos. Mas hoje reconhece-se que existe uma inteligência animal e uma inteligência artificial. A minha proposta reside precisamente em que se considere agora a existência de uma criatividade artificial. Em muitos aspectos semelhante à nossa, mas noutros distinta já que fruto, no caso dos robots, de um corpo autónomo, com capacidade de percepção ambiental (sensores) e um tipo de "raciocínio" não linear.É aliás este o ponto menos compreendido nos meus projectos. O que não admira já que se trata de uma ciência muito recente. Isto é, o programa que eu introduzo nos robots não visa levá-los a realizar tarefas determinadas, mas antes proporcionar os meios para que possam decidir por si mesmos (neste sentido é o oposto dos satélites)e pode ser comparado aos genes que os nossos pais nos transmitem, mas onde não está nada por exemplo sobre que profissão vamos seguir na vida. Por outro lado, está claro que estamos ainda nos primórdios da inteligência, criatividade e consciência artificiais, mas precisamente por isso estes primeiros passos são tão fascinantes. Os desenhos que RAP fez em Nova Iorque são simples garatujas, mas onde se detecta claramente uma composição, uma estética, uma arte. Eu olho e vejo a caverna de Lascaux dos robots. Por fim só uma questão mais filosófica. Porque sente necessidade de se diferenciar dos outros seres? Eu pelo contrário sinto vontade de me considerar uma simples parte de um todo que é mais do que a soma das suas partes.
Cumprimentos
Leonel Moura

domingo, 9 de março de 2008

Leonel Moura



« Ciência é muito mais excitante do que muita da arte ou cultura de hoje»
A «robótica» de Leonel Moura contada numa espécie de perfil:: 2008-03-08 Por Marta F. Reis
O atelier de Leonel Moura, num pátio perto da Rua das Janelas Verdes, em Lisboa, não tem nada a ver com o espaço que há uns anos queria que fosse governado por uma mulher má e eficiente, com muitos assistentes, para nunca ter de lá ir. É luminoso, meio arrumado e, confessa, é quase como uma casa. Aos 59 anos, ideias à frente do tempo e circunstâncias que diz terem tido a ver com persistência, vontade de aprender e alguma sorte, traduzem-se numa obra no mínimo singular: 13 livros, 12 robots e uma nova Árvore da Vida, entre outras telas, instalações e projectos de arquitectura. "Sou um artista", resume-se. Mas sabe que não é um artista qualquer. Foi dos primeiros a procurar a arte no campo da robótica ou, por outras palavras, a aplicar a robótica à arte. Fala dos seus "robots pintores" com orgulho e desprendimento até porque, faz questão de frisar, a arte é deles e não sua.
Quando se escreve um manifesto sobre arte simbiótica, como Leonel Moura fez em 2004 com Henrique Garcia Pereira, professor catedrático do Instituto Superior Técnico, as expectativas são abrir novos horizontes e fazer história. Mas afirmações como "as máquinas podem fazer arte", ou a expressão pessoal, a centralidade do artista e as pretensões moralistas e espirituais ligadas à produção artística podem (finalmente) ser abandonados acabariam por chocar algumas pessoas. Leonel explica que o caminho percorrido mostrava que havia adeptos e entusiasmo suficiente para compensar os desagradados, mesmo que a questão da crítica nunca tivesse sido crucial na decisão de seguir uma abordagem completamente nova e com um lado provocador. Nos anos 70 começou a largar os trabalhos ligados à fotografia e optou decididamente por uma componente conceptual da arte, deixando para segundo plano o lado manual e artesanal e as expressões de sentimentos. "Sempre fui muito mais um artista da mente, do pensar, de utilizar imagens já feitas fora do seu contexto". Daí a começar a ligar a arte a outros campos não demorou. O lado auto-didacta, curioso e empreendedor levou-o a investidas na arquitectura, política e por fim na ciência.
"Afastei-me do meio artístico e comecei a ligar-me à ciência"
"Convidei uma série de pessoas importantes na altura para virem a Portugal, por exemplo o Humberto Maturana. Eu já sabia, mas através da organização destes eventos percebi que a ciência se tinha tornado numa coisa fascinante e não numa coisa chata, como os artistas tendiam a vê-la. Apercebi-me de que a ciência era muito mais excitante do que muita da arte ou cultura de hoje que é repetitiva, sempre à volta das mesmas coisas, sem grande inovação. Afastei-me do meio artístico e comecei a ligar-me à ciência", explica.
A viragem nunca faria dele cientista mas também não era por aí que queria ir. No campo da robótica e da inteligência artificial não precisou de cursos superiores para tudo o que aprendeu mas de boas ferramentas, muitas delas na Internet, e da motivação e trabalho de alguns especialistas. A abordagem que queria fazer da ciência era pioneira. Não tinha a ver com ilustração científica, nem com a construção de dispositivos tecnológicos para uso próprio, mais máquinas fotográficas ou técnicas de impressão. Era o fim disso tudo: Queria concretizar conceitos científicos na arte. Se alguns artistas não perceberam, a comunidade científica percebeu bem. Eram os primeiros passos mundiais da arte robótica. Com base em estudos matemáticos sobre formigas e outros insectos de organização social, Leonel Moura quis desenvolver robots que funcionassem e pusessem efectivamente em prática os algoritmos desenvolvidos pelos cientistas. Os primeiros robots que fez reproduziam a comunicação por feromonas destes insectos num mecanismo em que o "químico" era substituído por cor.
Os trilhos de feromonas, que na realidade descreviam por exemplo as movimentações das formigas, na tela em branco ganhavam a forma de padrões e traços de cor. Emergia arte, pinturas abstractas em que a configuração embora parecesse aleatória não tinha nada de casual – resultava de uma "técnica de composição criativa optimizada por milhões de anos", escreve no seu último livro "Robotorium", que reúne todo o seu trabalho e estudo na área da robótica. Estes primeiros robots, que designou por ArSBot ou robot formiga pintor, foram o primeiro projecto de arte robótica com uma forte componente de criatividade e autonomia. "Não deixa de ser um processo criativo. Evidentemente que um artista que pinta uma tela e depois a assina tem o trabalho terminado. No meu caso as coisas são mais dinâmicas, embora se produzam pinturas estáticas. Depois há estímulos da própria arte: O robot questiona-me, coloca-me problemas, faz coisas que me levam a pensar porque é que ele estará a fazer aquilo", diz.
O RAP que correu MundoA experiência foi um sucesso. Passado um ano recebeu uma proposta do Museu de História Natural de Nova Iorque para fazer um robot-pintor que pudesse ficar sozinho, dentro de uma vitrina, a pintar tela atrás de tela. A concretização viria em 2006, com o RAP, um robot com elevada autonomia que acabou por correr o mundo. Um dos exemplares, que acabou mesmo por ficar a viver em Nova Iorque, continua a trabalhar hoje sem dar grandes problemas.
Só pinta quando as pessoas estão a ver (é activado por sensores), tanto pode demorar cinco minutos como uma semana a ficar "satisfeito" com a tela e a dar por terminado o seu trabalho e raramente se avaria, até porque também não teria ninguém para resolver o problema, conta Leonel. Os principais adeptos são os seguranças do museu, brinca, que os activam sem querer e às vezes de propósito durante as rondas de vigilância. Depois do RAP, seguiram-se outros projectos como o ISU, um robot que pinta e escreve mediante inputs de frases, o Dada 2.0 Robot iconoclasta ou, no último ano, o Robotarium, o primeiro jardim zoológico de vida artificial do mundo, uma estrutura de vidro com 45 habitantes representantes de 14 espécies que dá um ar futurista ao jardim central de Alverca. As recompensas são muitas e variadas. Uma das primeiras foi quando, em Berlim, numa viagem de divulgação do seu trabalho, alguém quis efectivamente comprar uma tela pintada por um robot pintor. Nunca tinha pensado nisso, nem sabia que valor dar ao quadro. Depois ter algumas das telas dos seus robots a ser capa de revistas científicas, como aconteceu mais uma vez este ano na revista do MIT "Artificial Life", é outro motivo de satisfação. Os exemplos continuariam.
"A programação é uma espécie de anti-programação"
"Põem-me questões como 'mas foi você que programou…'. Eu tenho alguma dificuldade em explicar que a programação é uma espécie de anti-programação, é uma programação que dá o máximo de autonomia ao robot e o mínimo de interferência minha", explica Leonel. "Aqui a novidade e o interesse é uma máquina que faça a arte dela, com as características do seu pequeno 'cérebro' e da forma como vê o mundo. Os robots são pequenos computadores capazes de situar no mundo. Um robot sai do sítio, decide em função do que observa", acrescenta. Há mais de dez anos dizia numa entrevista que não queria que a sua arte ficasse conhecida por não ter tido nada a ver com o mundo. A preocupação manteve-se. "O que tenho feito é anunciar coisas que vêm aí. No campo da robótica é evidente que dentro de algum tempo vamos andar rodeados de robots, a fazer as mais variadas coisas e com graus de autonomia diferenciados. Basta perceber que estão milhares e milhares de pessoas a pensar nisto mundo, empresas a fazer grandes investimentos. Quando digo que um robot faz arte é uma coisa muito poderosa. As coisas quando começam são sempre muito rudimentares, mas percebemos para onde é que estamos a ir", antecipa. A travar a evolução, sobretudo na arte, vê uma série de pressupostos errados que têm de ser postos de parte. É contra as ideias simplistas para explicar coisas complexas e contra as novidades que não são novidades porque não adiantam nada. Em suma, recusa fazer parte do campeonato da arte pela arte.
"Continuo a visitar museus, exposições e continuo a dar-me com artistas e muitas vezes sinto-me um pouco decepcionado. É verdade que a nossa capacidade de apreciar arte não se pode limitar à arte do nosso tempo. Mas se estamos a falar sobre arte contemporânea, sobre uma arte que evolui, que transforma, a questão é outra", defende. "Costumo dizer uma frase que é meio a gozar: é sempre melhor pintar um quadro que vender armas. Não tenho nada contra as pessoas que pintam quadros com pescadores e com paisagens mas não é aí que quero estar", brinca.
Vontade de abrir portasSe há coisa que o tem acompanhado ao longo da carreira é a vontade de abrir portas, mostrar horizontes, ajudar a ver a realidade. Dos livros que publicou, alguns não têm nada a ver com arte ou ciência. É obcecado mas não é obsessivo, afirma, porque há outras preocupações no mundo. Entrou para o Partido Socialista porque se considera uma pessoa de esquerda. "De esquerda no sentido em que acho que uma pessoa de esquerda não está feliz sem ver os outros felizes. O facto de haver muita miséria, guerra, fome são coisas que me impressionam muito, que me tocam", diz. Escreve todas as semanas um artigo de opinião para o "Jornal de Negócios" e segue naturalmente os problemas do dia-a-dia, embora diga que hoje vive mais na Internet do que em Portugal. Em Novembro do ano passado montou uma galeria na Rua das Janelas Verdes. A Leonel Moura ARTe, aberta de terça a sábado, da parte da tarde, faz a ponte do atelier para o público. Neste momento mostra uma colecção de telas de artistas como Kandinsky, Andy Warhol ou Van Gogh interpretadas por diferentes robots que criaram padrões sobrepostos.
Quer deixar uma marca na robótica, à escala do artista que é e do cientista que não é. Vem com os mini-robots em que tem estado a trabalhar nas mãos como se fossem mesmo animais pequenos, indefesos mas com um talento especial. São robots-bactérias quase, como lhes chama. E mostra no livro a família a que pertencem na Árvore da Vida, no ramo dos "Robota". "É uma provocação", diz. O futuro talvez mostre que não. A sua maior preocupação neste momento é criar pequenos robots vivos, com a vida deles. Não deixa de ser arte.