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sexta-feira, 6 de março de 2009

Artista usa a própria cabeça para criar arte


Levi van Veluw é um artista multidisciplinar holandês que pensa na arte de uma forma diferente.
Como forma de mostrar as suas obras, este artista utiliza a sua própria cabeça para criar as suas obras. Assim, a cabeça do artista transforma-se em floresta, estátua de pedra e muito mais.
Levi van Veluw utiliza vários materiais para produzir e dar forma às suas obras, como pedras, musgo e até iogurtes. Exibindo em fotografias a sua arte, o artista cola os materiais na sua própria cara e fotografa-se.
Um trabalho de muita paciência e sem manipulação digital que já foi exibido na Europa, nos Estados Unidos e na China.

Fonte: IOL

domingo, 7 de dezembro de 2008

Novos artistas alemães













Novos artistas alemães conquistam mercado mundial da arte

Tim Eitel pinta figuras de um mundo resignado
Em vez de conceitualismo, videoarte e instalação, foi o realismo figurativo que garantiu a penetração dos novos artistas alemães, após a queda do Muro, no mercado mundial da arte.

A partir do início dos anos de 1990, o mundo experimentou o fenômeno que ficou conhecido por revolução digital. Para acompanhar o desenvolvimento dos novos meios, foram inauguradas, na Alemanha, escolas como a Academia de Arte e Mídia (KHM), em Colônia, e o Centro de Arte e Mídia (ZKM), em Karlsruhe.

No entanto, em vez do esperado desenvolvimento em direção à videoarte ou à instalação, a arte alemã, a partir da última década do século 20, foi marcada pelo ressurgimento da pintura figurativa como forma de expressão artística e pela fusão da arte com a fotografia, cujo valor de mercado passou a se igualar ao das obras de pintura.

Entre os principais representantes da nova geração de fotógrafos alemães, estão Candida Höfer, Thomas Struth, Thomas Ruff e Andreas Gursky. Na pintura, destacam-se principalmente jovens artistas da pintura figurativa, como Neo Rauch, Tim Eitel, Norbert Bisky e Sophie von Hellermann, entre outros.

Após a reunificação da Alemanha, em 1990, observou-se também o deslocamento do eixo artístico situado entre Colônia e Düsseldorf em direção ao Leste do país. Berlim despontou como pólo atraente de artistas e galerias e, com o ressurgimento da pintura figurativa realista, Leipzig tornou-se uma das principais metrópoles artísticas do país.

Melancolia pós-hedonista

Artistas alemães consagrados, como Gerhard Richter, Sigmar Polke e Rosemarie Trockel chegaram ao século 21 como os mais bem cotados artistas do mundo, segundo o ranking da revista alemã de economia Capital.

No entanto, a ascensão da nova arte alemã no mercado internacional, a partir dos anos de 1990, deveu-se, tanto na fotografia como na pintura, à preferência que o mercado de arte norte-americano passou a dar aos jovens artistas alemães.

Além do caráter representativo de lifestyle que a arte assumiu, nos últimos anos, as razões deste sucesso se encontram na reação estética provocada pela revolução digital na pintura e na fotografia e nos temas abordados pelos novos artistas.

Poucos são os fotógrafos que não trabalharam suas fotos em computadores, poucos são os pintores que não pintaram suas telas a partir de fotografias. A arte alemã da virada do século tematizou a globalização, a melancolia pós-hedonista, o esvaziamento do espaço público e a história alemã a partir de 1989.

Andreas Gursky e outros artistas

Figurativa e realista, a pintura se aproximou do Realismo Socialista, desponjando-a de qualquer ameaça intelectual. A fotografia, resgatada como expressão artística, retratou subúrbios desolados, fachadas industriais sombrias, retratos enormes e paisagens longínquas e vazias. Sobretudo os alunos de Bernd e Hilla Becher, na Academia de Belas-Artes de Düsseldorf, despontaram no mercado internacional.

Nomes como Candida Höfer, Andreas Gursky, Thomas Struth e Thomas Ruff conseguiram elevar o valor da fotografia ao das obras de pintura. Em 2007, o díptico 99 Cent II, de Andreas Gursky, foi leiloado em Londres por 1,7 milhão de libras (cerca de 2,3 milhões de euros).

Esta é uma cifra impressionante, se considerarmos que o curso de Fotografia da Academia de Belas-Artes de Düsseldorf, o primeiro da Alemanha, foi instituído somente no início dos anos de 1970 e que, até o início da década de 1980, o público especializado ainda discutia o valor artístico da fotografia colorida.

Despojada de qualquer mensagem

Entre os novos pintores, destacam-se os artistas do grupo em torno de Neo Rauch, denominado de Neue Leipziger Schule ou Nova Escola de Leipzig, oriundos da Academia de Artes Visuais de Leipzig.

Escola de Leipzig foi o nome cunhado para os artistas da cidade que expuseram na documenta 6, em 1977, cuja pintura era figurativa e engajada. Mesmo depois da queda do Muro, Arno Rink, aluno destes pintores, continuou a ensinar técnicas da pintura clássica na Academia de Artes Visuais de Leipzig. Rink formou a segunda geração da Escola de Leipzig.

Tecnicamente perfeita, mas despojada de qualquer mensagem e com motivos que lembram o Romantismo, a terceira geração da Escola de Leipzig ficou conhecida como Nova Escola de Leipzig.

Televisão, computador, internet

Entre os mais célebres representantes deste novo realismo da Academia de Artes Visuais de Leipzig, estão Neo Rauch e Tim Eitel. Em seus quadros, Rauch retrata a convivência pacífica de trabalhadores socialistas, nostálgicos postos de gasolina e figuras de história em quadrinhos. Tim Eitel aposta na contemplação serena de suas figuras realistas que parecem meditar num pano de fundo abstrato.

Norbert Bisky, que nasceu em Leipzig mas estudou em Berlim, consegue unir o homoerotismo ao Realismo Socialista ao retratar garotos louros que brincam sobre dunas.

A bávara Sophie von Hellermann, uma das poucas artistas que não pinta a partir de fotografias, mistura cenas de seu mundo pessoal com personagens da literatura, do cinema ou da história.

Estes jovens artistas incorporam a mudança de paradigma da cultura analógica para a cultura digital. Se, para alguns, sua mescla de mistério e cultura pop é motivo de críticas, para outros, é a fonte de onde bebe a nova arte. Sem ideologias, eles retratam a atualidade de um mundo resignado e sem perspectivas.

Eles mesmos são filhos da cultura de consumo pós-moderna e do capitalismo digital. Aprenderam a perceber a realidade não a partir do objeto real, mas através da televisão, do computador, da internet. Sua obra espelha o desejo de uma geração jovem – que muitos chamam de conservadora – por segurança, por ideais românticos, por laços sociais e por comunicação, em tempos de extremo individualismo.

Carlos Albuquerque

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Artes: Qualidade da arte pública em Portugal posta em questão em debate em Serralves

Porto, 23 Out (Lusa) - O director do Museu de Arte Contemporânea de Serralves (MACS) afirmou hoje, no Porto, que "uma estátua honesta é muitas vezes mais interessante que as intervenções abstractizantes que se vêem pelas rotundas de Portugal".
Aquele responsável considera que, na maior parte dos casos, estas intervenções, que muitas vezes se limitam a "um conjunto de calhaus ao alto", são "de muito duvidosa qualidade", pelo que mais valia que a decoração daqueles espaços tivesse sido deixada aos cuidados dos jardineiros municipais.
João Fernandes falava durante um debate sobre "Arte Pública em Portugal", realizado hoje na Casa de Serralves, no Porto, a propósito da comemoração do 10º aniversário do lançamento do Prémio Tabaqueira de Arte Pública.
O crítico de arte João Pinharanda concordou com a crítica de João Fernandes e referiu que, há poucos anos, fez uma ronda pelos municípios da cintura industrial de Lisboa para fazer uma avaliação aos muitos monumentos ao 25 de Abril que por ali abundam.
"Na realidade são muito, muito maus", afirmou.
O escultor Alberto Carneiro considerou, a este propósito, que "são muitos os exemplos em Portugal de obras de arte pública sem qualquer dignidade".
Insurgiu-se também contra a instalação de obras de arte em rotundas, considerando que "uma obra de arte numa rotunda é uma inutilidade".
"As obras de arte são para as pessoas fruírem, para conviverem o mais proximamente possível com elas, para se encostarem nelas", defendeu.
Deu como exemplo de boa prática no campo da arte pública os simpósios de escultura de Santo Tirso, que têm permitido àquela cidade reunir em pouco tempo uma espólio "valiosíssimo espólio de arte pública" de autores nacionais e internacionais.
A académica Lúcia Matos referiu que esta situação deriva, em parte do facto de, em Portugal, não existirem, como existem noutros países, entidades especializadas na mediação entre as autarquias, que encomendam as obras, e os artistas.
Na ocasião, foi também lançado o livro "7 Artistas, 7 Paradigmas, Prémio Tabaqueira", em que João Pinharanda faz um balanço do "Prémio Tabaqueira de Arte Pública".
Esta obra dá a conhecer as sete obras premiadas, cinco das quais já estão construídas, da autoria de João Pedro Croft (Sintra), Richard Serra (Fundação de Serralves, Porto), Fernanda Fragateiro (Angra do Heroísmo), Didier Fiúza Faustino (Castelo Branco) e Pedro Cabrita Reis (Coimbra).
As outras duas obras premiadas são projectos de Joana Vasconcelos (para o largo da Academia das Belas Artes em Lisboa) e de Alberto Carneiro, para a estrada da Malveira da Serra, entre Cascais e Sintra.
© 2008 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.2008
Fonte: RTP

sexta-feira, 20 de junho de 2008

São Tomé e Príncipe - A Bienal


De 26 de Junho a 26 de Julho, São Tomé e Príncipe vai ser palco da V Bienal de Arte e Cultura, que este ano contará com a participação de nomes das artes visuais de São Tomé (Eduardo Malé, Kwame de Sousa, Nezó, René Tavares, entre outros), mas também de artistas portugueses (como Ângela Ferreira, Inês Gonçalves, João Tabarra e Miguel Palma) e de outras nacionalidades. Quase não dá para acreditar que um país africano tão pobre e tão pequeno possa organizar um grande evento internacional. A ambição do Centro Internacional de Arte e Cultura (CIAC) é grande, mas a programação promete estar à altura. Sob o tema “Partilhar Territórios”, esta edição da Bienal é, acima de tudo, uma proposta de diálogo que pretende tornar real o conceito de que a arte aproxima os homens.Na Casa da Cultura estará patente uma exposição sobre o exílio de Mário Soares em São Tomé. No antigo cinema será exibido um documentário sobre as primeiras décadas do país, cedido pelo Arquivo do Instituto Marquês de Valle Flor. Serão apresentados espectáculos de dança, além de paradas, procissões e várias expressões culturais de São Tomé (como a tradição do Tchiloli, um teatro de rua que reporta à Tragédia do Marquês de Mântua e de Carlos Magno). Mas o núcleo central da Bienal é uma exposição internacional de arte contemporânea que vai realizar-se nas Antigas Oficinas das Obras Públicas, um espaço industrial que é um verdadeiro assombro e que promete marcar este momento de viragem, tornando São Tomé um verdadeiro entreposto cultural.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Arte Articulada


Edifícios históricos do Algarve desactivados ganham nova vida com intervenções do projecto "Articulações".
A antiga Fábrica da Cerveja, em Faro, a Mina Campina de Cima e o Convento de Santo António, ambos em Loulé, ganharão nova vida este Verão com as intervenções de cerca de trinta artistas contemporâneos inseridas no programa ALLGARVE 08.
Espaços históricos que perderam há muito a sua época áurea, progressivamente abandonados por terem sido desactivados, vão ser agora palco do projecto "Articulações", comissariado por Nuno Faria e produzido pelo Museu de Arte Contemporânea de Serralves, que reúne um conjunto de artistas convidados a realizar intervenções específicas inspiradas na história, memória, materialidade, presença e uso desses lugares.
André Carvalho, Ângelo de Sousa, Sérgio Taborda, Dan Perjovschi, Fernanda Gomes, António Bolota, Leonor Antunes, Ricardo Jacinto, Thierry Simões, Hugo Canoilas, Phil Niblock, Ian Kiaer, João Queiroz, Raimond Chaves e Gilda Mantilla são alguns dos cerca de trinta artistas representados nesta exposição que se divide entre a Fábrica da Cerveja, a Mina Campina de Cima e no Convento de Santo António.
"Articulações" está inserida no programa de sete exposições de arte contemporânea da 2ª edição do programa ALLGARVE, com um total de 59 artistas portugueses e estrangeiros que mostrarão as suas obras até Setembro nos municípios de Faro, Lagoa, Lagos, Loulé, Portimão e Albufeira, em quinze espaços tão diversos como praias, o aeroporto de Faro, antigas fábricas, monumentos e centros culturais.
A antiga Fábrica da Cerveja, onde se concentra o trabalho da maioria dos artistas do projecto "Articulações", foi originalmente uma fortaleza militar, tendo sofrido mudanças na arquitectura ao longo dos tempos, consoante o uso a que se destinava, e foi progressivamente abandonada.
No edifício, os artistas estão a ultimar intervenções em desenho, pinturas murais, vídeo e som, exprimindo as suas abordagens sobre a arquitectura e história do espaço, que já foi usado no ano passado, na primeira edição do ALLGARVE, para receber exposições de obras provenientes da colecção do Museu de Arte Contemporânea de Serralves.
A fábrica, a mina e o convento "têm em comum o facto de não estarem configurados para receber arte, e é isso que os liga", disse à Agência Lusa o comissário do projecto, durante uma visita a uma semana da abertura da exposição.
Os diferentes espaços da Fábrica da Cerveja, alguns com as paredes descarnadas que mostram vestígios das antigas muralhas da cidade, estão a ser ocupados pelas instalações dos artistas, entre elas a de António Bolota, que concebeu um pilar de pedras de mármore branco com 16 metros, que liga o chão ao tecto, provocando um grande impacto visual no visitante.
Nuno Faria apontou que os artistas "ficaram muito entusiasmados com o projecto e a escolha dos espaços de intervenção foi feita com grande harmonia".
Fernanda Gomes está a montar a sua instalação numa das muitas divisões da fábrica e confessou sentir-se fascinada "pela beleza rejeitada" de espaços com história e memória que perderam o seu uso e foram ficando degradados.
A artista brasileira está a usar na sua instalação a terra que cai das paredes, areia, pedras e bocados de madeira que encontra durante os seus passeios pela zona antiga de Faro.
João Maria Gusmão e Pedro Paiva é a dupla de artistas responsável pela intervenção na Mina Campina de Cima, em Loulé, parte do projecto Abissologia recentemente inaugurado com uma exposição realizada na Cordoaria Nacional, em Lisboa.
Os visitantes são convidados a descer a centenas de metros de profundidade, onde podem avaliar o movimento milenar da terra, as estalactites de sal, filmes e instalações produzidas pelos artistas propositadamente para o espaço.
No Convento de Santo António, também em Loulé, Rui Moreira e Rui Sanches usaram desenhos e esculturas de vários períodos do seu trabalho, a par de novas intervenções nos claustros do edifício, nos quais abordam as dimensões sagradas e profanas, a história e memória do espaço, Com uma programação de 65 eventos nas áreas da arte contemporânea, música, desporto e gastronomia, o ALLGARVE 08 é promovido em conjunto pelo Turismo de Portugal, pela Região de Turismo do Algarve e pelos municípios algarvios.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

O "graffiti" chegou às paredes do Tate Modern




29.05.2008 - 16h04 Filipa Cardoso
Da Itália ao Brasil, artistas de várias nacionalidades cobriram de "graffitis" as paredes do Tate Modern, em Londres. Um dos mais consagrados museus de arte moderna do mundo vestiu-se de cultura urbana e não deixa indiferente quem passa por Bankside.“À primeira vista parece um homem com uma arma, mas é um homem com uma câmara!”, afirmava uma visitante à porta do Tate Modern, a um entrevistador da BBC que lhe perguntava o que achava do grafitti do fotógrafo francês JR, que representa um homem gigante de olhar ameaçador com uma câmara na mão. Mesmo para quem não quiser entrar no Tate Modern, pode sempre observar os coloridos "graffitis" que ornamentam desde a semana passada a fachada do, até então, monocolor do museu. A grande maioria dos artistas confessa que parte dos seus trabalhos foram criados de forma ilegal. Este projecto permitiu levar, de forma legal, as cores e imagens dos vários universos artísticos do "graffiti" para uma das mais conceituadas instituições inglesas ligadas à arte.A iniciativa, intitulada "Street Art at Tate Modern", patente até ao dia 25 de Agosto, tem como principal objectivo criar a primeira exposição de "graffitis" nas paredes de um grande museu. Entre os mestres da arte do "spray", destacaram-se o italiano "Blu", fascinado pelo corpo humano, o colectico novaiorquino "Faile", que elegeu o hip-hop como tema, o fotógrafo parisiente "JR", que opta por um universo a preto e branco, os brasileiros "Nunca", que usam cores quentes e objectos representativos da sua cultura, como o café, ou o colectivo “Gémeos”, também do Brasil, muito influenciado pelos artistas indianos e ainda os espanhóis "Sixeart", com um estilo abstraccionista psicadélico.Paralelamente às representações no Tate Modern, obras de cinco artistas madrilenos foram distribuídas pelo quarteirão de Southwark, símbolo do renascimento da zona sul da capital inglesa. Do outro lado da ponte Millenium, o mesmo universo colorido e irreverente estende-se pelas ruas.Em Soho, Hoxton ou Brick Lane, as galerias especializadas nesta arte multiplicam-se. Em Fevereiro, a loja “Bonham" organizou um leilão para venda de graffitis que atingiram preços recorde. Ainda recentemente, os habitantes de Bristol mobilizaram-se para conservar os murais do seu “enfant terrible”, Banksy, que recentemente organizou um festival de "graffiti" com 40 artistas.

“A arte é tão importante que pode legitimar as mais horríveis ideologias”

O que faz um historiador de arte?
Um historiador de arte procura ler, interpretar e devolver memória a arquitectura, escultura, pintura, têxteis, gravura. Isto é, tenta que o objecto de arte que teve já um papel determinado pela História em determinado momento - medieval, moderno ou contemporâneo -, volte a ter o papel de encantamento, de testemunho. Que volte a ter um papel de trans-memória relativamente ao público que olha para ele.
Esse conceito de trans-memória é muito caro para si.
A obra de arte é o único objecto criado pelo homem que é vivo. Tem uma dinâmica dialéctica, trans-contextual, que é permanentemente renovada porque vai gerando permanentemente novos públicos.
Cada época tem um olhar sobre a mesma obra de arte?
A obra de arte escapa ao autor e ao público. Não basta ao historiador de arte saber quem fez e quando, quem é que a encomendou, porque isso explica apenas uma pequena parte do problema. O grande problema é: o que é que a obra é?
É sempre um exercício subjectivo.
Pode haver margens de erro, mas deve haver o mínimo. O historiador deve ter rigor para interrogar a obra com objectividade, cumprindo a metodologia que lhe cabe, trabalho de laboratório, estudo comparativo. Mas é claro que a obra, por regra, é inesgotável. Toda e qualquer obra de arte é inesgotável.
O historiador de arte é o intérprete ou o mediador entre o autor e o público.
Perfeitamente. É um intérprete crítico, com um papel activo, mas tem que ter primeiro que tudo uma grande humildade relativamente ao objecto. Interrogá-lo, descobri-lo, desvendá-lo. E parar quando a obra não revela mais…
Como é que se atinge essa percepção de que não há mais significados escondidos?
O erro é humano e normal. Tentamos errar o mínimo...
Nunca fica com a sensação de que há em determinada obra mais qualquer coisa escondida?
Sim e é normal que se volte a ver obras que já vimos, que tivemos que estudar noutros momentos, e dar-lhes um bocadinho mais. Nós evoluímos e a própria obra pode revelar aspectos que não eram intuíveis num primeiro momento.
Houve algum bem artístico que lhe tenha dado especial prazer estudar?
Hoje (dia 21 de Maio) vou falar aqui em Santarém da Capela Dourada, porque é um monumento da minha terra adoptiva que vejo desde pequenino, com o meu avô, com o meu pai. É uma magnífica capela barroca praticamente ignorada pelos escalabitanos, que tem estado fechada ao público. É uma obra que encaixa bem na pergunta que me fez. Foi desdobrando o encanto à medida que fui crescendo também com ela. A talha, a pintura, os rodapés, os retábulos barrocos, é uma unidade extraordinária do melhor barroco português que está ali encafuado naquele pequeno templinho ao lado da igreja do antigo hospital.
Grande parte da sua vida profissional é virada para o passado. Até que ponto isso determina a sua forma de analisar e viver o presente?
Gosto de definir o meu trabalho como de contemporaneidade. Porque toda a obra de arte é contemporânea. Pelo menos no momento em que olho para ela, em que a convoco para o meu tempo e tento entender os fascínios, os mecanismos que a fabricaram e que continuam a gerar empatia, ou não, relativamente a ela.
Agora também é verdade que tenho dedicado a minha vida a estudar o maneirismo, o renascimento, o barroco como períodos mais privilegiados. O proto-barroco é um período notável em Portugal e no antigo império português na arquitectura, na arte decorativa…
Qual dessas modalidades gosta mais de estudar?
Tenho estudado mais pintura, porque era o parente pobre. Em Portugal há milhares de quadros, frescos, alguns de muito boa qualidade e era a matéria mais urgente.
Todos os regimes marcantes têm habitualmente correntes estéticas associadas. A arte é uma forma de cimentar as ideologias?
Contrariando a ideia de que o património nasce inevitavelmente ligado a um momento de estabilidade ou de maior poderio económico, muito frequentemente nasce na mais rebelde vanguarda, na mais inóspita periferia. O fenómeno criativo tem outro tipo de regras. Depende do génio criativo mas depende fundamentalmente de uma conjuntura de rebelião, de comprometimento ideológico, da luta por ideais. A arte tem ideologia.
Isso aliás ficou bem vincado durante o regime nazi na Alemanha ou na extinta União Soviética.
Aí é diferente. Hoje está na moda denegrir o contributo do comunismo para o mundo. Estamos numa época neo-liberal em que se dá ideia que o comunismo não deu nada de bom. Convém distinguir e lembrar que há um contributo muito importante da esquerda a nível mundial que não é compaginável com o estalinismo. Confundimos tudo. E, nomeadamente no campo artístico, aquilo que foi criado naquele país feudal e que quebrou as grilhetas da tirania com o partido bolchevique, foi extraordinário.
Com o estalinismo as coisas mudam.
O estalinismo veio quebrar o fio condutor da criatividade e reprimir os criadores. E criou um regime sem grande qualidade, como também não tinha no campo hitleriano aquela caricatura de arte que em nome do combate à chamada arte degenerada foi criado para elogiar o regime fascista alemão. Evidentemente, a arte é tão importante que pode legitimar as mais horríveis ideologias.
Fado sim, touradas não
O centralismo cultural de Lisboa atrofia o país?
Numa altura em que está na moda atacar o Estado por tudo e por nada, creio que o Estado democrático tem um papel a cumprir nomeadamente na política cultural. Tem de haver um dirigismo competente e coerente que o Estado não cumpre. Lisboa é atacada não por ter um controlo a mais, mas por ter a menos. Defendo que deve haver mais Estado na cultura.
Em que sentido?
Deve haver uma melhor gestão dos monumentos que estão a cair, do património móvel que é vilipendiado, da política de restauro que não é feita. Enfim, são tantos problemas… Estamos a falar de bens públicos que não têm ideologia, que não têm carimbo, que nos comprometem em termos de futuro.
O abandono a que está votado o convento de São Francisco, em Santarém, é um exemplo dessa postura.
Houve uma altura em que confiámos muito, quando a câmara de José Miguel Noras levou a cabo uma tentativa de estudo integrado e um arranque do restauro que infelizmente não foi avante. Essa é uma das muitas nódoas que existem em Santarém a nível do património.
Que ligações tem com Santarém?
É a minha terra adoptiva. Aprendi a gostar muito dela com o meu avô, que era um ribatejano genuíno, e foi aqui que publiquei os meus trabalhos há mais de trinta anos. Vivi em Santarém bastante tempo.
A cidade tem potenciado o capital monumental que lhe é reconhecido?
Não. Houve uma candidatura falhada a património mundial e há trabalho válido feito por historiadores locais, arqueólogos e arquitectos. Mas nunca houve um programa de conjunto, nunca houve um inventário levado ao detalhe, nunca houve uma política de abertura desse património à comunidade. Há que trabalhar muito a nível pedagógico e do turismo cultural.
Chamar a Santarém capital do gótico é um exagero?
É! Mas é bonito. Para mais vindo de quem vem. O dr. Virgílio Correia nos anos 20 era o maior explicador medievalista português e a sua autoridade era inquestionável. Encontrou em Santarém três ou quatro monumentos relativamente intactos e uma quantidade de vestígios dos períodos românico e gótico que justificavam o título, não tanto pelo que ficou mas pelo que houve.
O seu pai esteve na génese do Politécnico de Santarém quando lutou pela criação da universidade do Ribatejo que nunca chegou a vingar. Santarém perdeu aí uma grande oportunidade de se afirmar no contexto nacional?
Na altura foi uma enorme polémica. Mas olhando para a realidade do país onde proliferam as universidades e as faculdades verificamos que muito provavelmente aquele projecto não era uma utopia. E a cidade hoje seria diferente.
É um entusiasta das tradições ribatejanas?
Gosto da etnografia da borda de água, da vida piscatória, é algo que me apaixona. Tal como o fado. A tourada não. É um espectáculo que desde pequeno me criava engulhos. Tem um lado bárbaro e violento e não mudei a minha opinião.


Fonte:

terça-feira, 27 de maio de 2008

Mundo: Artista iraquiano torturado em performance contra a tortura

Um iraquiano foi recentemente torturado em Nova Iorque. Era ele ou o cão Buddy - a decisão coube às 4300 pessoas que votaram no site DogOrIraqui.com. O artista não o disse, mas deu a entender que a votação não foi absolutamente transparente e que o desfecho já estava decidido à partida. A iniciativa foi organizada pelo Torture Choice, um grupo americano de protesto contra a tortura. Ler mais no PÚBLICO.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Brasil - Exposição une nanotecnologia e arte


CAMILA RODRIGUES
Um filme que exibe, em mais de dez minutos, da aproximação microscópica de um único grão de pedra até o afastamento e a formação de uma mandala construída por monges com pó de pedras preciosas.
Divulgação
A "Nanomandala" está na exposição "Nano", que tenta explicar nanotecnologia para leigos; mostra fica em SP até junho
O vídeo, formado por 300 mil fotos, é projetado sobre uma superfície redonda com pó de mármore que pode ser manuseado.
A "Nanomandala" é uma das seis instalações produzidas pela artista multimídia Victoria Vesna e o cientista James Gimzewski e expostas na mostra de arte Nano, que ocorre na FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado), em São Paulo, até o dia 1º de junho.
A idéia da exposição é fazer com que qualquer pessoa entenda alguns conceitos de nanotecnologia e física quântica. Veja mais no blog Circuito Integrado.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

"Exposição Tecnologia com Arte e Mostra Interactiva de Ciência e Tecnologia"

Exposição Tecnologia com Arte e Mostra Interactiva de Ciência e TecnologiaPalácio Vila Flor
Entrada livre
No âmbito de mais uma iniciativa do Projecto Ciência na Cidade de Guimarães, será realizada hoje, dia 16 de Abril, às 18h30, uma visita guiada à Exposição “Tecnologia com Arte” e à “Mostra Interactiva de Ciência e Tecnologia” que estão patentes no Palácio Vila Flor. A Exposição “Tecnologia com Arte” pretende dar a conhecer a “beleza” latente no trabalho desenvolvido pelos diferentes departamentos da Escola de Engenharia da Universidade do Minho. Considerando que uma bela imagem é capaz de cativar a nossa atenção, de transmitir sensações e de ajudar a olhar para algo de um modo diferente, a exposição aborda o tema Engenharia associando o texto a imagens com uma forte componente estética.Os pormenores artísticos em equipamentos, processos produtivos, produtos usados e criados nos diferentes departamentos foram captados pela objectiva do fotógrafo para nos suscitar curiosidade, sensações, enfim, para nos permitir «ver» e «sentir» para além do rigor, da objectividade e da tecnologia existentes numa Escola de Engenharia. Comprova-se, assim, que Tecnologia e Arte andam associadas e podem encantar-nos de um modo muito especial. A “Mostra Interactiva de Ciência e Tecnologia” é um espaço lúdico e exploratório, especialmente concebido a pensar nos mais novos mas que agradará a jovens de todas as idades. Serão exibidas diversas experiências demonstrativas de princípios fundamentais da Física em âmbitos tais como o Electromagnetismo, a Mecânica e a Óptica. Também se fará a demonstração de algumas tecnologias actualmente empregues em domínios tais como a Produção de Energia Eléctrica – em particular, a que se baseia na utilização de energias renováveis – os Transportes, a Automação Industrial e a Domótica. Organização Universidade do Minho - Escola de Engenharia, Museu de Alberto Sampaio, Câmara Municipal Guimarães, A Oficina HorárioSegunda-Feira a Sábado10h00 às 12h3014h00 às 19h00Domingo14h00 às 19h00

quarta-feira, 16 de abril de 2008

BIOS4, un nuevo paradigma


BIOS4 es una exposición y una plataforma de información (Wikibiotics) alrededor de dos importantes segmentos del arte cognitivo y tecnológico actuales: el arte bio-tecnológico y el arte medioambiental. Desarrollados desde mediados de la década de los 80 del siglo XX, los antecedentes de estas tendencias artísticas se situan todavía en los años 50 y, en el caso particular de BIOS4, finales de la década de 60. La oportunidad de aventurarme en esta indagación sobre los orígines de un nuevo paradigma de las artes, salido del agotamiento de las vanguardias fenomenologistas del arte ‘moderno’ y ‘contemporaneo’, me la dió el Centro Andaluz de Arte contemporaneo y su director, Jose Lebrero Stalls, al invitarme para comisariar BIOS4.

Arte e conhecimento


terça-feira, 15 de abril de 2008

O fim da arte como conhecimento


Não temos a capacidade de destilar em palavras as experiências visuais que fazem o belo repousar naquilo que é apreendido pelo olhar. Uma obra de arte é tudo que ela contém: forma, textura, cor, linhas, conceitos, relações, etc. É aquilo que se vê, e o que se diz não corresponde exatamente ao que se vê. Não representa nada como imagem de outra coisa. E para ler um trabalho de arte é necessário se partir de um modelo (referências, informações...). Existem códigos a priori (aqueles utilizados pelo artista) e códigos a posteriori (aqueles utilizados pelo espectador).A virtude da arte é afirmar um conhecimento, propondo instrumentos que seduzem a inteligência. A invenção de uma linguagem é o resultado de um exercício paciente de contemplar outras linguagens. Como todo discurso é resultado de outros discursos. Exige-se um método. A arte é o que está além dos limites de tudo o que se considera cultura; não pode se restringir a um exótico experimento ou aparência da superfície de um trabalho, que fica para trás, como uma coisa vazia, no primeiro confronto com o olhar que pensa.A arte, entendida, como meio de conhecimento, hoje em dia, vem cedendo lugar a uma experiência ligada ao lazer e a diversão, que envolve outros profissionais como responsáveis pela sua legitimação: o curador, o empresário patrocinador e organizador de eventos, marchands, profissionais de publicidade, administradores culturais e captadores de recursos. Com as leis de incentivo a cultura e a presença marcante da iniciativa privada, paradoxalmente, levou a arte a um limite, o fim da obra, do trabalho ligado a um saber. E o artista, nem artesão e nem intelectual, sem dominar qualquer conhecimento, está cada vez mais sujeito ao poder do outro. As grandes mostras são grandes empreendimentos para atender à indústria do entretenimento (mais empresarial e menos cultural), que movimentam uma quantidade significativa de recursos e envolve um número assustador de atravessadores.As contradições modernidade/tradição, contemporâneo/moderno, neste início de século, cede lugar a uma outra contradição: artistas que pertencem ao metier e artistas estranhos ao metier, inventados por empresários da cultura, cujos trabalhos se prestam para ilustrar uma tese ou teoria imaginária de um suposto intelectual da arte e garantir o retorno do que foi investido pelo patrocinador e pelo comerciante de arte. Uma mercadoria fácil de investir, sem risco de perda, basta uma boa campanha publicitária. O artista pode ser substituído por um ou por outro, a obra é o menos importante. Aliás, é o que a indústria do marketing tem feito com as mostras dos grandes mestres como: Rodin, Manet, etc., pouco importa as obras desses artistas e sim o nome e o patrocinador. A publicidade leva consumidores/espectadores como quem leva a um shopping center. A quantidade de público garante o sucesso. O público é como o turista apressado, carente de lazer cultural que visita os centros históricos com o mesmo apetite de quem entra numa lanchonete para uma alimentação rápida.Na "sociedade do espetáculo", regida pela ética do mercado, o artista sem curador, sem marchand, sem patrocinador, é simplesmente ignorado pelas instituições culturais, raramente é recebido pelo burocrata que dirige a instituição. Seus projetos são deixados de lado. Também pudera, essas instituições, sem recursos próprios, tem suas programações determinadas pelos patrocinadores. Numa sociedade dominada pelo império do marketing, a realidade e a verdade são mensagens veiculadas pela publicidade que disputa um público cada vez maior e menos exigente. A vida é vivida na especulação da mídia, na pressa da informação. E neste meio, a arte é uma diversão que se realiza em torno de um escândalo convencional, deixando de lado a possibilidade do pensamento.O fantasma do "novo", que norteou a modernidade foi deslocado para o artista que está começando, pelo menos novo em idade, o artista/atleta, a caça de novos talentos e de experiências de outros campos sociais. Totens religiosos, a casa do louco, a rebeldia do adolescente... Tudo é arte, sem exigir de quem faz o conhecimento necessário. Todo curador quer revelar um jovem talento, como se a arte dispensasse a experiência. Um "novo", sinônimo de jovem ou de uma outra coisa que desviada para o meio de arte, funciona como uma coisa "nova". Um novo sempre igual, a arte é que não interessa. Praticamente trinta anos depois do aparecimento da chamada arte contemporânea no Brasil, recalcada nos anos 70 pelas próprias instituições culturais, um outro contemporâneo surgido nos anos 90 passou a fazer parte cotidiano dos salões, bienais, do mercado de arte, das grandes mostras oficiais e de iniciativa privada. Uma contemporaneidade sintomática.Estamos vivendo um momento em que qualquer experiência cultural: religiosa, sociológica, psicológica, etc. é incorporada ao campo da arte pelo reconhecimento de um outro profissional que detém algum poder sobre a cultura, (tudo que não se sabe direito o que é, é arte contemporânea). Como tudo de "novo" na arte já foi feito, o inconsciente moderno presente na arte contemporânea implora um "novo" e nesta busca insaciável do "novo", experiências de outros campos culturais são inseridos no meio de arte como uma novidade. Deixando a arte de ser um saber específico para ser um divertimento ou um acessório cultural. Neste contexto, o regional, o exótico produzido fora dos grandes centros entra na história da arte contemporânea. Nos anos 80, foi o retorno da pintura, o reencontro do artista com a emoção e o prazer de pintar. Um prazer e uma emoção solicitados pelo mercado em reação a um suposto hermetismo das linguagens conceituais que marcaram a década de 70. Acabou fazendo da arte contemporânea, um fazer subjetivo, um acessório psicológico ou sociológico. Troca-se de suporte nos anos 90 com o predomínio da tridimensionalidade: escultura, objeto, instalação, performance, etc., mas a arte não retomou a razão.Na barbárie da informação e da globalização, estamos assistindo ao descrédito das instituições culturais e da dissolução dos critérios de reconhecimento de um trabalho de arte. Tudo é tão apressado que acaba no dia seguinte, os artistas vão sendo substituídos com o passar da moda, ficam os empresários culturais e sua equipe. Uma corrida exacerbada atrás de uma "novidade", que não há tempo para se construir uma linguagem. O chamado "novo" é a experimentação descartável que não chega a construir uma linguagem elaborada, mesmo assim, é festejado por uma crítica que tem como critério de julgamento interesses pessoais e institucionais. A arte pode ser qualquer coisa, mas não são todos os fenômenos ditos culturais, principalmente os que são gerados à sombra de uma ausência de conhecimento.

AlmandradeSalvador, 20/6/2002

Arte?

Arte é o que se chama de arte?
Postado por Luciano Trigo em 11 de Dezembro de 2007 às 19:33
No dia 19 de novembro passado publiquei na Folha de S.Paulo um artigo sobre arte contemporânea. Como o artigo já gerou três réplicas e uma tréplica, no próprio jornal, e dezenas de mensagens e outras manifestações (a favor e contra), na antiga versão deste blog, acho interessante trazer para o G1 o debate, que está longe de se encerrar.
Não vou transcrever os posts e artigos, mas destacar seus trechos mais relevantes. Tudo começou quando li uma matéria do repórter Ivan Claudio na revista Isto é, que tomava como pretexto duas exposições para levantar questões sobre os rumos da arte contemporânea. Na instalação Ainda viva, a artista Laura Vinci espalhou sete mil maçãs sobre uma mesa de mármore branco e o chão de cimento de uma galeria; já Quebra-molas, de Débora Bolsoni, reproduzia um redutor de velocidade de automóveis feito com uma tonelada de massa de paçoca de amendoim. As duas instalações tinham em comum a deliberada efemeridade e o recurso a comestíveis como matéria-prima.
A revista pediu a Ferreira Gullar, poeta e crítico de arte, que comentasse as obras. Aspas:
Essa produção vai morrer aí e nem tem mesmo como sobreviver. (…) Trata-se da arte da boa idéia, da Caninha 51. Esse tipo de trabalho não tem artesanato, não tem técnica, não tem linguagem. Já se usou de tudo: balde, bacia, ovo frito. É uma falta de imaginação, uma grande bobagem que não me interessa. Prefiro ficar em casa lendo Hamlet.
As artistas se justificaram falando da transitoriedade das coisas vivas, de tentativas de simbolização etc.
Eu escrevi:
“A arte contemporânea é um tema em que é difícil tornar produtivo qualquer debate, pois sempre se cai num Fla-Flu, isto é, vira uma questão de adesão incondicional de torcedor, mais que de reflexão crítica. Dando nome aos bois, o que temos hoje são, de um lado, críticos, como Ferreira Gullar e Affonso Romano de Sant’Anna, que contestam a legitimidade e o valor de instalações como as de Laura e Débora, e de outro lado artistas que rejeitam em bloco este julgamento como reacionário e conservador. O problema não é saber quem está com a razão, mas constatar que desse atrito não sai nenhum desdobramento interessante. Por quê? Algumas hipóteses:
- Os artistas são auto-suficientes: ignoram solenemente crítica que os contesta.- Os críticos perderam a importância que tinham no processo de legitimação da produção artística.- Hoje, para um artista, importa muito mais se inserir numa rede de relações composta de curadores, marchands e galeristas do que obter reconhecimento crítico.
A noção de valor em artes plásticas é altamente subjetiva. Mas é também condicionada pelo contexto histórico-cultural e pelo modelo de relação entre economia e cultura que estiver prevalecendo. O sucesso de um artista hoje não depende somente, nem mesmo principalmente, do valor intrínseco do que ele produz, dos méritos plásticos ou estéticos de sua obra, mas sobretudo de sua capacidade de inserção num sistema complexo de seleção, que está cada vez mais distante da arte e cada vez mais próximo do mercado, do consumo e da moda - mesmo quando veste o surrado disfarce da transgressão, aliás outra palavra assimilada pelo mercado, pelo consumo e pela moda.
Tendo a simpatizar com as sete mil maçãs de Laura, o quebra-molas de paçoca de Débora me interessa menos. Mas isto é questão de gosto. O que parece preocupante é que esse tipo de produção - desligada da realidade, das questões contemporâneas, de compromissos, da História, do presente, em suma, da vida real – quase monopolize os espaços da arte hoje. É uma produção cujo principal defeito, para mim, é ser inofensiva. Pode até trazer fama, viagens e dinheiro a quem a faz, mas é disso que se trata?”
Ou seja, sem falar mal de ninguém, minha preocupação era analisar por que uma tendência dominante na arte contemporânea não reverbera e é recebida com indiferença fora de círculos fechados. Para minha surpresa, mesmo antes de sair no jornal este texto foi recebido a pedradas por um bocado de gente. O que de certa forma me dava razão: o debate sobre arte no Brasil era mesmo um diálogo de surdos.
No segundo capítulo da novela, já apoquentado pela leitura torta que estavam fazendo do meu texto, me atribuindo coisas que não disse e intenções que não tive, expliquei que só tinha levantado algumas hipóteses, sem em momento algum condenar, em bloco, a produção artística atual – o que seria uma idiotice. Escrevi:
“As duas instalações citadas (as maçãs e o quebra-molas de paçoca) pecam não pela controvérsia gratuita, ao contrário: pecam por serem obras inofensivas, fechadas em si mesmas, que não se articulam com nenhum processo exterior a elas próprias. As artistas têm obrigação de vincular suas obras à realidade? Não. Mas quando instalações desse tido se tornam a tendência dominante da arte, isto causa uma impressão de esgotamento e alienação. Nesta altura, aliás, as sete mil maçãs já devem ter apodrecido na galeria. E daí?
Todos os movimentos de vanguarda do século 20 que resistiram à prova do tempo - e foram vários - devem boa parte de seu êxito ao fato de terem mobilizado a sociedade em debates produtivos, porque estavam associados a transformações sociais, culturais, psicológicas e tecnológicas que tinham um impacto direto na vida das pessoas. Basta pensar na relação do futurismo com a guerra e com velocidade trazida pela máquina ao cotidiano das pessoas para constatar que o novo não era uma manifestação espontânea e gratuita de gênios individuais. Mesmo o surrealismo, com seu projeto de libertar a criação de qualquer controle racional, só foi possível num contexto de consolidação da idéia de inconsciente concebida por Freud; além disso, numa segunda etapa, o surrealismo foi associado por André Breton a um projeto político de esquerda, o que é uma contradição em termos, mas confirma o papel do contexto histórico na arte de cada época.
Quando Marcel Duchamp expôs um urinol ou desenhou um bigode na Monalisa, fez um gesto revolucionário, que rompia com as convenções e abria possibilidades infinitas para a arte. Mas, como todos os gestos fundadores, é irrepetível, porque o contexto já passou: desenhar um bigode na Monalisa hoje seria apenas ridículo. Abolidos os cânones, qualquer adolescente é capaz de transgressões parecidas.
O problema é que as fronteiras entre a criação artística e a empulhação pura e simples se tornam muito tênues em alguns momentos. A falência da crítica como fator relevante apenas agrava esse quadro, já que quem legitima o artista hoje não é mais o reconhecimento crítico, mas o sucesso em si: se faz sucesso, é bom. Nada mais capitalista. Mas talvez seja mesmo este o destino de todas as artes (a literatura, a música etc), isto é, enquadrar-se numa lógica de mercado ou morrer.
Mais grave que a repetição anódina de fórmulas que fizeram sentido na primeira metade do século passado é o esforço, igualmente ultrapassado, de épater a qualquer custo. Como é cada vez mais difícil chocar as pessoas, alguns artistas “perdem o senso de noção”, numa tentativa desesperada de ganhar projeção num mercado (pois é) cada vez mais competitivo. Duas obras recentes são bastante representativas desse fenômeno:
1) Numa exposição em Manágua, em agosto passado, o artista plástico costa-riquenho Guillermo Vargas Habacuc amarrou um cachorro num canto da galeria e o deixou lá sem comida, até morrer de fome, diante dos olhos perplexos dos visitantes. Habacuc se justificou: “O importante para mim era constatar a hipocrisia alheia. Um animal torna-se foco de atenção quando o ponho em um local onde pessoas esperam ver arte, mas não quando está no meio da rua morto de fome. Este cachorro está mais vivo do que nunca, porque continua dando o que falar”.
2) Em outubro, o artista plástico cipriota Stelarc convocou a imprensa para mostrar sua obra mais recente: ele implantou uma orelha no próprio braço. Stelarc utiliza o próprio corpo como plataforma para os seus trabalhos, que envolvem instrumentos médicos, próteses, biotecnologia, elementos de robótica e sistemas de realidade virtual. Não satisfeito, ele anunciou que quer implantar um microfone próximo à orelha, para captar o que estiver sendo “escutado”.
Será arte?”

O fim da arte segundo Arthur Danto

Por Luciano Trigo em 14 de Dezembro de 2007 às 14:50
Em Após o fim da arte , Arthur C. Danto afirma que a arte - ou pelo menos uma determinada idéia de arte - chegou ao fim. A tese não é nova: Hegel já havia anunciado algo parecido no começo do século XIX. Nem Hegel nem Danto estavam anunciando um tempo em que não se fazem mais obras de arte, ou onde os artistas deixariam de existir ou de ter um papel relevante: isso seria uma idiotice, pois, como na época de Hegel, hoje artistas continuam produzindo obras de arte – cada vez mais, é verdade, dentro de um sistema de relações cada vez mais movido pela lógica do mercado e da mercadoria, o que caracterizaria um período “neoliberal” da arte.
O fim da arte, segundo Danto, não significa o fim das obras de artes, mas sim de um tipo de arte que fazia parte de uma história (ou de uma narrativa), pautada pelas noções de estilos e movimentos, e pela crença de que existia uma linha evolutiva entre eles - linha que seria preciso compreender para interpretar e avaliar qualquer obra de arte particular. Em outras palavras, o que acabou foi o laço que unia a arte à História, laço que estava na base de todos os manifestos e movimentos do século 20, pelo menos até meados dos anos 60. A partir daquele momento, e cada vez mais, o único compromisso dos artistas seria com a liberdade absoluta, liberdade inclusive de repetir, colar, reler, citar etc, do jeito que quiserem.
Existe até uma corrente pomposamente chamada de “apropriacionista”, a que se filia, por exemplo, o artista Mike Bildo, que se apropria de imagens alheias para supostamente lhes atribuir um novo sentido. Desta forma, Bildo faz cópias idênticas de obras de Marcel Duchamp e Andy Warhol e as intitula ”No Duchamp” e “No Warhol”, por exemplo. Entenderam? Para mim, sinceramente, isso é um embuste, uma palhaçada, uma tolice. Jorge Luis Borges, no conto Pierre Menard, autor del Quijote, cria um personagem que reescreve palavra por palavra o Dom Quixote de Cervantes, atribuindo assim um novo sentido à obra. É, evidentemente, uma ironia. Bildo é uma espécie de Menard que se levou a sério - e o mais grave é que todo mundo bateu palmas.
Aspas de Danto: “É parte do que define a arte contemporânea que a arte do passado esteja disponível para qualquer uso que os artistas queiram lhe dar. O que não lhes está disponível é o espírito em que a arte foi realizada.” [e isso faz toda diferença].
Ora, levando-se Danto a sério, a implicação direta disso é que não existe mais critério para se estabelecer o que é ou não é arte. Se a técnica e o talento deixaram de ter importância, se não existe diferença visível, por exemplo, entre um objeto do cotidiano e um objeto de arte, o que determina o valor de um artista passa a ser sua capacidade de inserção no sistema da arte, através de uma rede de relacionamentos com marchands, galeristas, curadores, colecinadores – sistema que expeliu, por desnecessários, os críticos. Esse sistema dita o que vale e o que deixa de valer, segundo movimentos que têm muito mais a ver com a Bolsa de Valores do que com a idéia convencional de arte. Ao mesmo tempo, o aspecto sensorial da arte perdeu importância frente ao seu aspecto filosófico: o papel da arte passou a ser refletir sobre si mesma. O próprio Danto assume que o modelo vigente “impossibilita a definição de obras de arte com base em certas propriedades visuais que elas possam ter”. Ele vai além, numa sentença que considero verdadeira e estarrecedora (estarrecedora porque tristemente verdadeira): “O que quer seja a arte, ela já não é basicamente algo para ser visto”.
Danto - e, como ele, Hans Belting, em O fim da História da Arte - sugere que o fim da arte começou a acontecer nos anos 60, com a Pop Art e Andy Warhol. Até ali, as obras de arte eram pensadas e avaliadas fundamentalmente em termos estéticos. Toda a arte moderna apresentou questões estéticas, mesmo quando discutia as condições, os meios e os métodos da representação. E foi quando esse predomínio da estética, por algum motivo, deixou de corresponder ao que se produzia, é que o conceito de moderno se tornou insuficiente, e se buscou um substituto: pós-moderno ou contemporâneo (mas não contemporâneo no sentido puramente temporal, já que continuaram existindo artistas preocupados com a estética).
Danto sugere que existiram duas grandes narrativas sobre a arte, isto é, duas grandes modelos que estabeleciam como a arte deve ser: a de Giorgio Vasari, no sec. XVI, correspondente à arte mimética, e a de Clement Greenberg no século 20, correspondente à arte moderna. Os dois modelos bastam para entender a arte de vários séculos, sua natureza e sua função. A narrativa de Greenberg, responsável pela teorização do modernismo, teria deixado de fazer sentido para a arte dos nossos dias. “Contemporâneo”, escreve Danto, “passou a significar uma arte produzida dentro de uma estrutura de produção jamais antes vista em toda a História da Arte”. A minha conclusão é que hoje não existe mais uma narrativa que permita compreender o passado, o presente e o futuro da arte – a não ser a narrativa do mercado.
É por isso que, desligada da História, uma boa parcela da arte contemporânea caiu num processo de repetição vazia. Para muita gente, a superação das questões modernas representou um vale-tudo, um contexto em que tudo é arbitrário. A questão é: quem arbitra o valor nesse cenário, que Danto descreve como sendo de “desordem informativa” e “entropia estética”? O artista, para ter uma existência social neste modelo, não estaria abrindo mão de sua soberania para se tornar mais facilmente assimilável pelas correntes da moda? Esse pacto econômico que fundamenta o sistema da arte e excluiu a reflexão crítica – a ponto de hoje qualquer pensamento questionador ser recebido a pedradas pelos próprios artistas – não estaria mergulhando num divórcio suicida entre arte e sociedade? A anunciada Bienal do Vazio não seria um sintoma de que algo vai mal?

Após o fim da arte – A arte contemporânea e os limites da História, de Arthur C. Danto. Tradução de Saulo Krieger.

Arte electrónica

O movimento "art pour l'art", a partir do século XIX, teve o mérito de questionar a função social da arte e, ao voltar-se para uma avaliação de si mesma, refletir sobre as próprias ferramentas e sobre como explorá-las livremente, até a implosão. O custo foi alto, embora necessário, tendo rendido, de qualquer forma, excelentes frutos na modernidade.Porém nem o artista concretizou o sonho de desagrilhoar-se dos seus entornos (eu diria, aliás, que nunca a relação entre o artista e o sistema social e econômico foi tão tensa e intrincada como a partir do século XIX), nem a sociedade engoliu assim, com tanta facilidade ― e prazer ― o livre-arbítrio estético. Acho que eu posso afirmar sem risco que os tempos da pós-modernidade (embora conceituar um artista como pós-moderno seja o mesmo que chamar Você-Sabe-Quem de Lord Voldemort) mostram, sobretudo, uma preocupação em re-estabelecer o elo perdido entre objeto artístico e sujeito ― ok, entre arte e público.Chega de bancar o autista, dizia a turma dos anos 80. Gradualmente, queiram ou não os pessimistas, os saudosistas e até mesmo alguns críticos cujo olhar permanece vinculado à proposta romântico-modernista, os artistas voltaram a trocar o "u" pelo "r" e as mostras de arte estão, cada vez mais, comprometidas com idéias e conceitos antes considerados incompatíveis, tais como: entretenimento; contato físico (lembrando que antigamente se dizia: não se toca em obra de arte!); jogo; comunicação; e até mesmo ― oh! ― pedagogia da arte!Nesse exato instante, temos um belo exemplo bombando, aqui em Porto Alegre, no Santander Cultural: o FILE ― Feira Internacional de Arte Eletrônica. Net-art, instalações, filmes interativos, realidade virtual, vídeos, games e web-art, tudo misturado esperando não só pelo seu click no mouse, mas por sua entrega de corpo inteiro. Coragem: passe ridículo, dance, olhe, toque, ouça: afinal, você é um espectador contemporâneo, e não são apenas os seus olhos que estão literalmente em jogo, mas toda a sua capacidade cognitiva e motora. Divirta-se, mas preste atenção.Algo está acontecendo com aquilo que chamamos ― ou costumávamos chamar de arte. Esqueça as tradicionais definições, elas não cabem nesse caso. Mais do que uma exposição lúdica e, em alguns casos, reflexiva, a FILE quer nos propor a derrubada de fronteiras há muito destituídas de sentido. Por que essa assimetria entre função estética e função comunicativa? Por que priorizar estesia em detrimento da diversão? Por que, aliás, queimar fosfato tentando diferenciar o que é arte daquilo que não é? Essas questões não implicam de forma alguma propor o fim da arte como conceito, mas o seu deslocamento, numa reorganização inclusiva do saber estético. Gosto muito de uma frase de Gérard Genette ― teórico mais conhecido pela tribo literária, mas que tem um livrinho fantástico chamado A Obra de Arte: Imanência e Transcendência ― onde ele afirma que definir um objeto como obra de arte não passa de uma convenção útil, quando desejamos situar esse objeto em seu contexto sócio-cultural e econômico; contudo, essa definição é, não só hipotética, mas provisória, requerendo uma previsão de intencionalidade ― é preciso que esse artefato tenha sua função estética reconhecida tanto por quem o produz, como para quem o percebe. Esse raciocínio fica bastante claro para mim toda vez que penso em Duchamp como um exemplo de manipulação desses conceitos. Porém, deixemos Duchamp em paz, nesse momento. Na FILE, tudo pode ser, alguma coisa deve ser, ou nada daquilo é ― arte. Depende muito da intenção autoral de tal objeto (se ele foi concebido para exercer essa função), mas também dependerá do modo como ela será veiculada ou compreendida ― o fato de ela estar inserida num espaço institucional concebido para expor obras de arte faz muita diferença. Ou não faz?E se a Feira tivesse ocupado o estacionamento de um shopping center, tal como fazem as feiras de design, ou de informática? E se você pudesse acessar cada trabalho (como é o caso de alguns) pela internet? Será que isso mudaria alguma coisa para você, meu caro sujeito interagente? Será que isso mudaria a função ― ou o caráter ontológico ― do objeto artístico? Hans Belting e Arthur Danto, não por nada, ao discorrerem sobre o fim da história da arte, querem dizer do fim de um determinado approach do objeto auto-reflexivo estético, cuja validade encontra-se com os dias contados, se é que já não venceu.Porém, a meu ver, não se trata somente de um modo de aproximação desse objeto; tudo indica (sintoma e diagnóstico tão provisórios quanto quaisquer outros, não esqueçam) que as fronteiras entre linguagens estéticas e suas aplicações, sejam elas puramente poéticas, utilitárias, educativas ou lúdicas, por enquanto e para o pensamento contemporâneo, estejam caminhando para uma espécie de pulverização, o que não quer dizer que tudo o que se faça ou se intencione produzir como arte, preencha de forma adequada ou bem-sucedida essa função. Por enquanto, ligue-se e verifique por si mesmo: pense, enquanto se diverte. E vice-versa.Nota do EditorTexto gentilmente cedido pela autora. Originalmente publicado no site Artistas Gaúchos.Paula MastrobertiPorto Alegre, 14/4/2008

sábado, 29 de março de 2008

Informática ao serviço da arte - Artista artificial

São pixéis, milhões de pixéis. Juntos formam obras de arte criadas pelo NEvAr, um artista artificial desenvolvido ao longo dos últimos dez anos no Departamento de Engenharia Informática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Mas não será uma contradição falar-se de artista artificial? Um artista não é um criador, espontâneo e, por isso, natural?
Na verdade, e embora o tema não seja consensual, a evolução da ciência tem permitido que arte e tecnologia se aproximem. O NEvAr (Neuro Evolutionary Art), exemplo disso, é um programa informático que permite produzir obras de arte em computador baseadas no código genético de seres vivos.
O sistema começou a ser desenvolvido em 1997 por Penousal Machado e Amílcar Cardoso, no Laboratório de Inteligência Artificial da Universidade de Coimbra, e contou, nos últimos anos, com o contributo de cientistas da Universidade da Corunha. Trata-se de um programa informático constituído por dois módulos: um Criador, com capacidade para originar um imenso conjunto de imagens, e um Crítico, cujo papel pode ser desempenhado por uma rede neuronal ou com a intervenção do utilizador.
'O Criador é ‘cego’. Não tem qualquer conceito de arte, tem é a capacidade de se adaptar às preferências do Crítico e também de criar novas imagens', diz o coordenador do projecto, Penousal Machado. Já o Crítico 'pode ser artificial, isto é, um sistema computacional que consiga fazer certo tipo de juízos estéticos e, como tal, guiar a ferramenta autonomamente, ou um ser humano'. Do ponto de vista teórico, o Criador 'tem capacidade de gerar qualquer imagem: uma fotografia, um quadro de Van Gogh, imagens abstractas…'
O NEvAr baseia-se em algoritmos de inspiração biológica. 'Tal como na Natureza, há, ao longo do tempo, recombinação do código genético das imagens e um mecanismo de avaliação que permite que os programas mais aptos, segundo as preferências do utilizador, tenham mais probabilidade de sobreviver', afirma.
'Assumimos a natureza digital e artificial da obra, o pixel', diz Penousal Machado. 'Não pretendemos substituir os artistas nem os críticos de arte. O nosso objectivo é antes tornar o computador um veículo para a expressão artística e fazer da programação um instrumento para a produção de arte', revela. As obras de arte feitas de pixéis abrem caminho à área da criatividade artificial, numa altura em que a inteligência artificial é uma realidade bem aceite.
O sistema tem três modelos de funcionamento: interactivo, semi-autónomo e autónomo. No primeiro, o utilizador pode guiar a obra; no segundo, há uma interacção entre a orientação do utilizador e o computador; e no modo autónomo, o computador cumpre todo o processo. Para que a máquina pudesse fazer juízos estéticos, os investigadores programaram a aplicação com dois conjuntos de imagens: um de pintores famosos (Van Gogh, Picasso, Dalí ou Monet) e outro com imagens produzidas aleatoriamente em computador, e ‘ensinaram’ o sistema a distinguir entre ambos.
FICHA TÉCNICA
Nome: NEvAr (Neuro Evolutionary Art)
Ano de criaçãO: De 1997 a 2008
Produto: Software
Internet: http://eden.dei.uc.pt/~machado/NEvAr/Site.htm
Investigadores: Penousal Machado e Amílcar Cardoso, do Departamento de Engenharia Informática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, e uma equipa de investigadores da Universidade da Corunha
Exposições: O NEvAr já expôs as suas obras nos EUA, em Espanha, Hungria, Itália, Rússia, entre outros países
Custos: Não contabilizados
PROJECTOS EM VÁRIAS ÁREAS
No Centro de Informática e Sistemas da Universidade de Coimbra (CISUC) estão em curso projectos em áreas tão diversas como Bioinformática, Informática Médica e Computação Ubíqua. Fundado em 1991, tem nove áreas de pesquisa (Ciência dos Computadores, Inteligência Artificial, Simulação e Informação, Tecnologias da Educação, Computação Adaptativa, Sistemas Confiáveis, Comunicações e Telemática, Bases de Dados, Sistemas de Informação e Sistemas Complexos e Evolucionários) e 150 investigadores, colaborando com a NASA, a Agência Espacial Europeia ou a Microsoft.
PROCESSOS
AUTOMÁTICO
Imagem gerada em modo automático, isto é, com o Criador baseado em programação genética e o Crítico baseado em redes neuronais artificiais, treinadas para distinguir entre um conjunto de imagens de autores famosos e um conjunto de imagens de menor valia estética.
DEMORADO
Imagem criada em modo interactivo. O utilizador assumiu o papel de Crítico, guiando o processo evolutivo. Esta obra implicou entre 50 a 100 populações, o que corresponde a cerca de duas horas de interacção com a ferramenta.
UTILIZADOR
No modo interactivo, o utilizador vai pontuando as imagens apresentadas pelo sistema e a partir desse juízo o NEvAr cria outras imagens e assim sucessivamente até se chegar à obra pretendida.
'NÃO É O FIM DOS ARTISTAS' (Penousal Machado, coordenador do projecto NEvAr)
CM – Esta ferramenta não poderá significar o fim do artista ou da obra de arte?
PM – Não é o fim dos críticos de arte nem dos artistas. O objectivo não passa por aí, mas por estudar as questões que estão relacionadas com a estética, a criatividade e a inteligência.
CM – Que aplicações, além da criação de imagens, tem este programa?
PM – As principais aplicações deste programa situam-se ao nível do crítico de arte artificial, que permite fazer a classificação automática de imagens, pesquisas de imagem baseadas nas características estéticas e poderá ser usado, por exemplo, em museus. Depois tem aplicações na área da fotografia, podendo funcionar como um sistema de aconselhamento que ajuda o utilizador a obter a melhor imagem.
CM – Está prevista a comercialização do NEvAr?
PM – Essa possibilidade só fará sentido no âmbito de um projecto financiado, porque tem custos elevadíssimos, mas é uma hipótese que estamos a explorar.
Cátia Vicente

Ver também Leonel Moura

domingo, 23 de março de 2008

João Dixo



Decorre na Galeria S. Mamede no Porto a exposição do pintor João Dixo

João Dixo

João Dixo
Natural de Vila Real, nascido em 1941.Curso Superior de Pintura da Escola Superior de Belas Artes do Porto, em 1966, com 20 valores. Bolseiro da Fundação Gulbenkian, durante todo o curso , e ainda de 1975 a 77 em Paris com Programa de Investigação reconhecido pelo Instituto Nacional de Investigação Científica. Curso de Ciências Pedagógicas da Faculdade de Letras da Universidade do do Porto.Professor do Circulo de Artes Plásticas da Associação Académica de Coimbra de 1955/1975.Membro Fundador do Grupo PUZZLE 1974/1979.Membro de La Jeune Peinture, Paris 1974/1980.Membro fundador da da APNDC (Bienal de Vila Nova Cerveira).Docente da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto desde 1973 a 1997.Responsável do grupo de desenho do Departamento de Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, desde a sua criação, 1986 a 1988.Director da A.R.C.A./E.T.A.C. (Ensino Universitário) e responsável da Licenciatura de Pintura – Coimbra.
Exposições Individuais1963 Vila Real; 1965 Galeria Divulgação, Porto; 1966 Galeria Árvore, Porto; 1971 Galeria C. A. P. , Coimbra; 1972 Galeria Alvarez, Porto; 1972 Galeria Quadrante, Lisboa; 1972 Galeria Dois, Porto; 1973 Galeria S. Mamede, Lisboa; 1974 Galeria L55, Paris; 1975 Galeria Alvarez, Porto; 1977 Galeria Diagonale, Paris; 1978 Fundação Eng.º António de Almeida, Porto; 1979 Fundação Gulbenkian, Paris; 1980 Galeria J. N., Porto; 1985 Galeria E. G., Porto; 1990 Galeria E. G., Porto; 1992 Galeria E. G., Porto; 1993 Galeria Y Grego, Lisboa; 1995 Galeria Artesis, V. N. Gaia; 1996 Galeria Vandelli, Coimbra; 1996 Y Grego, (Feira de Arte), Exponor; 1997 Y Grego, Lisboa; 1997 Galeria Vandelli, Coimbra; 1999 Galeria Lídia Cruz, Leiria; 2001 Casa Municipal da Cultura, Coimbra; 2002 Galeria Por Amor à Arte, Porto; 2003 Galeria São Mamede, Lisboa
Colectivamente participou em mais de duas centenas e meia de exposições e Festivais de Arte e Performance a título individual e como membro do Grupo Puzzle, em Portugal e no estrangeiro, destacando: Todos os Salões de La Jeune Peinture, Paris de 1975 a 1979, Exposition Dossier, Paris, 1972, Les 6 Jour de La Peinture, marselha 1975; Semaine d’Action Arc. Musée d’Art Modern de La Ville de Paris, 1980. Todos os Encontros Nacionais de Arte em Portugal de 1974 a 1978; Simposium Internacional d’Art Performance, 1979, Lyon, L’Information et l’Art - Université Toulouse Le Mirall, 1979; Jovem Pintura Portuguesa em Paris, 1976, Moderna Pintura Portuguesa, 1975, S. Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Museu de Lund, Estocolmo, 1976; Artistas Portugueses, 1977, Fundação Gulbenkian, Paris; Arte Portuguesa em Madrid, 1977, Peinture Actuelle Bretigny; Exposition Dossier, 1972 Ville Juif, Paris; Comparaison/Opposition; 1973, Limoges; European Figuration, Turim, 1975; Evidence/Aparence, 1975, Limoges, Châteaurux, Tulles, Paris, Exposição Levantamento da Arte do Séc. XX no Porto Museu Soares dos Reis, 1975, Porto; Galerie Suicidaire, 1975, Nice, Damiron; Dixo; Ricatto e Solombre, Galerie Art-Extension, 1975, Paris; Recherche d’Identité/Paradis Perdu; 1977, Limoges; Journées d’Action et d’Information de La Jeune Peinture, Pavillon du Jardin du Luxembourg; 1977, Paris; Artistas Actuais do Porto na Colecção do Museu Soares dos Reis, 1978; L’éclairage du Discours, Galerie Noire, 1978, Paris; ESBAP/FBAUP, 1995, Coventry, Porto, Art Exange, 1996; Cinco Estações de Pintura, 1996, Porto; III Bienal de Arte AIP - Europarque, 1999; Tesouros de Portugal, Macau, 1999. Grupos no Porto do século XX do programa Porto Capital Europeia da Cultura - Galeria do Palácio; Porto 60/70 os artistas e a cidade Museu de Serralves do programa Porto Capital Europeia da Cultura 2001.
Representado entre outras nas colecções das seguintes instituições:Fundação Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa; Museu Soares dos Reis, Porto; Casa de Serralves (Museu de Arte Contemporânea), Porto; Fundação Cupertino de Miranda, Famalicão, Museu de Amarante, Museu Malhoa, Caldas da Rainha; Museu de Ovar e também nas Colecções do Forum da Maia, Câmara de Vila Real, Câmara Municipal de Vila Franca do Campo, S. Miguel, Açores, e nas Colecções dos Bancos BPA, BPI, CGD, UBP, BCM, Banco de Portugal, Companhia Portuguesa do Cobre, Polimaia, Gec Alsthom.
Das Encomendas Públicas de Grandes Dimensões, destaca:Insituto Português de Oncologia do Porto; Centro de Saúde de Montalegre; Grande Salão de Recepções da Fábrica Flor do Campo, Stº Tirso; Conjunto de Esculturas e Pintura para a Companhia Portuguesa do Cobre, Porto; Câmara Municipal de Vila Franca do Campo, S. Miguel, Igreja Matriz de Ponta Garça, Açores; Convite da Gec Alsthom para a decoração mural de uma das Estações de Metro do Porto.

Arte na Miguel Bombarda


Cruzamento de arte e comércio dinamiza Rua Miguel Bombarda MARCOS CRUZ

Tudo começou num risco - o risco que Marina Costa e Artur Mendanha decidiram correr quando, após algumas conversas de café, assumiram o projecto de fazer de um edifício devoluto com 5000 metros quadrados de área na Rua Miguel Bombarda - a "rua das galerias de arte" do Porto - um centro comercial que rompesse por entre as margens do comércio tradicional e das marcas instituídas, ou seja, que vendesse a diferença.Hoje, a dois meses de se cumprir um ano sobre a abertura do espaço, quem nele entra vê (não um, mas) 27 riscos, cada qual de sua cor. Arco-íris ampliado que se vai reduzindo, risco a risco, à medida que as 27 lojas surgem no caminho do visitante. A sinalização segue a lógica dos hospitais. Pena é que a generalidade dos hospitais não siga a lógica da entrada do edifício portuense, onde os vários riscos coloridos apontam para uma esplanada em frente - a luz ao fundo do túnel. Os doentes agradeceriam.No Centro Comercial Bombarda (CCB), porém, respira-se saúde: as lojas, as pessoas que lá estão, os clientes, o ambiente entre todos. Há algo de estranho para quem se habituou a outros centros comerciais. O ar, imagine-se, é puro. A novidade acena a cada passo. "O que é que será isto?" Entra-se, pergunta-se e (na maioria dos casos) o dono, que preferirá ser visto como autor do conceito da loja, responde. Com tempo e detalhe.Não, isto não significa que o CCB do Porto esteja vazio e à cata de clientes. Quer antes dizer que, para todos os que lá trabalham, as pessoas são o mais importante. Concorrência? Marina e Artur trataram de a "arrumar" logo de início, escolhendo diversidade nas candidaturas. A noção generalizada entre os lojistas é a de que todos remam no mesmo sentido - e em nenhum caso o lucro parece ser filosofia única. Há sempre subjacente a ideia de alternativa ao consumo massivo, bem como a vontade de revelar produtos na fronteira entre a arte e o comércio, a procura de uma alma no negócio que não passe forçosamente pelo segredo e o desejo altruista de servir bem.Neste sentido, a prioridade vai para peças de autor ou marcas que não estão representadas em Portugal. É, desde logo, uma ponte com o circuito das galerias, que, por si só, não alimentava o comércio na zona. A dinamização de Miguel Bombarda pode assentar muito nesta relação - o presente já o indicia, ou não houvesse lojas a abrir pelas redondezas e projectos em lista de espera para ocupar espaços que eventualmente venham a vagar no CCB.
A Rua de Miguel Bombarda é um arruamento da cidade do Porto, em Portugal, conhecida pela concentração de várias galerias de arte. Começa na Rua de Cedofeita, na freguesia do mesmo nome, e termina na Rua da Boa Nova, já em Massarelos. Tem um comprimento total de 650 metros.

História
A actual "rua das galerias", chamava-se, antes de 1910, Rua do Príncipe, em honra do futuro rei D. João VI, príncipe regente durante a doença da sua mãe, a rainha D. Maria I.
A rua figura já na Planta Redonda de Black (1813), mas ainda pouco povoada de casas e ainda sem atingir a Rua de Cedofeita, onde hoje termina. Em 1839 já estava rasgada em toda a sua extensão actual e com um maior número de edificações, excepto no troço próximo da Rua de Cedofeita que só veio a receber casas a partir de meados do século XIX.
Com a implantação da república em 1910, a rua foi rebaptizada com o seu nome actual, em homenagem ao médico ilustre e precursor do regime republicano em Portugal, Miguel Bombarda.
Na actualidade, a Rua Miguel Bombarda é uma das artérias de cultura dos novos tempos, reunindo algumas dezenas de galerias de arte que, no primeiro sábado de cada mês, inauguram em simultâneo as suas novas exposições, atraindo multidões de apreciadores de arte, investidores, artistas, seguidores de formas de vida alternativas e muitos curiosos. A rua conta também com restaurantes, livrarias e várias lojas: de mobiliário retro-cool, de decoração alternativa, design, musica, etc
Retirado de: http://mjfs.spaceblog.com.br/71026/Rua-de-Miguel-Bombarda/