domingo, 8 de fevereiro de 2009

ARCO em Madrid


Gayatri Gamuz






Parece estranho, mas é mesmo assim. Muitos portugueses vão à ArCo, feira de arte contemporânea em Madrid, comprar obras portuguesas aos galeristas portugueses. Dos cerca de 150 mil visitantes, uns 15 mil serão oriundos de terra lusitana. "Mesmo pessoas que habitualmente não frequentam museus ou galerias visitam a ArCo", diz José Mário Brandão, da Galeria Graça Brandão (Porto). "É um pretexto para viajar, e nós, portugueses, gostamos de pretextos." Não se trata, portanto, de um fenómeno acidental, como o de alguém que compra uma fabulosa T-shirt em Londres e só mais tarde depara com a etiqueta Made in Portugal. Aqui a revelação é ante facto. Aliás, é intencional, pois parece que há quem, mesmo frequentando galerias em Portugal, prefira comprar na ArCo as obras que viu lá expostas. Ao galerista cabe o encargo de as voltar a trazer para Portugal e as entregar cá ao feliz comprador, o qual assim já pode dizer que comprou aquilo na ArCo.

Há várias razões possíveis para justificar essa tradição. Desde logo, obviamente, a falta de tempo para frequentar galerias. Depois, uma certa impressão de que as galerias levam o melhor do seu acervo aos eventos internacionais - não apenas à ArCo como à Feira de Basel (com extensão em Miami) e à Frieze em Londres, ainda mais importantes. Por último, há a vantagem de poder apreciar o que aqui se faz no contexto do que se faz em todo o mundo. Em torno da ArCo existe uma série de eventos paralelos, com uma feira concorrente (a Madrid Art Fair) e inaugurações em inúmeras galerias que aproveitam a presença maciça de apreciadores de arte na capital espanhola. Há também o lado social; inauguração com a presença dos reis (este ano vai o príncipe Filipe), almoços, jantares, conferências... "Esta é mais feira do que a de Basel ou a Frieze", diz José Mário Brandão. A vida nocturna também é importante, com cafés como o Chicote e o Cock a assumirem papel central.


12 galeristas portugueses vão à ArCo 09 mostrar os seus artistas

As pessoas que visitam a feira são as que se esperaria que fossem. Empresários, gestores, advogados, médicos e outros membros das classes trabalhadoras com algum disposable income e apetite cultural à medida. Quem circula pela ArCo não demora muito a dar por eles. A toda a hora se ouve falar a nossa língua, ainda que num tom de voz normalmente discreto, como é próprio de tal gente. Por vezes o conhecimento técnico impressiona. Na memória deste jornalista ficou uma conversa do ano passado sobre uma peça conceptual que consistia essencialmente numa enorme folha de papel dobrada em muitas partes. Essa folha tinha uma espécie de areia preta que se ia deslocando em diferentes sentidos. Quando a discussão atingiu o ponto em que alguém referiu a existência de uma peça semelhante algures no universo, o jornalista sentiu-se como o proverbial boi em frente ao palácio. Desesperado, foi em busca das familiares delícias da arte figurativa. Rapidamente as encontrou, pois a ArCo, ao fim e ao cabo, é um evento comercial, onde nem faltam primorosos retratos hiper-realistas a óleo.

Na arte contemporânea desapareceu o paradigma dominante. Passadas as grandes revoluções do século XX (surrealismo, dadaísmo, expressionismo abstracto, arte pop, etc.), entrou-se num período em que tudo é possível. Mais que possível, legítimo, no sentido de não haver ninguém, ou quase ninguém, que se atreva a dizer que aquilo não é arte.

Em 27 anos de existência, a ArCo mudou bastante. Transferiu-se da Casa del Campo para o recinto da Ifema e passou de evento essencialmente ibérico a uma feira que tenta cada vez mais atrair o grande coleccionador europeu e americano. Hoje em dia chama a atenção pela dimensão. Com cerca de 200 galerias, é uma feira grande e espaçosa. Trata-se de um espaço que, além da arte, é usado para mostrar móveis, automóveis e animais de companhia. Num dos andares ficam os standes maiores, no outro os mais pequenos, que não podem exceder 40 metros quadrados. Há também espaços de performances e conferências. "Como é feito em Madrid, é uma coisa altamente subsidiada - pelo governo, pela região, etc.", diz Carlos Carvalho, da galeria homónima. Há sempre um país convidado, e hoje em dia eles vêm com frequência do chamado mundo emergente. O ano passado foi o Brasil, este ano vai ser a Índia, um mercado que tem crescido exponencialmente ao longo dos últimos anos. 13 galerias e 50 artistas, seleccionados pelo curador Bose Krisshnamachari. Sendo este um assunto artístico e falando-se de Portugal, não podia faltar uma polémica sobre dinheiro. Este ano a polémica, como sempre, teve a ver com critérios. O Governo acha que foi generoso ao oferecer-se para, a título excepcional e em atenção à crise, cobrir os prejuízos que as galerias possam vir a ter até um limite de 20 mil euros. As galerias acham que o Estado tem obrigação de apoiar a internacionalização da arte portuguesa.


Para os artistas portugueses, esta é uma montra privilegiada para o mercado internacional

"A arte está bem, o mercado é que está mal", diz Luís Serpa, da galeria com o mesmo nome. "Pela primeira vez, a arte e as antiguidades não são refúgio. Deduzo que o cash-flow desapareceu." A crise nota-se na frequência e nas compras, sobretudo por parte dos institucionais. Para os galeristas, a ArCo já não é uma garantia de negócio, e o investimento tem de ser feito à medida. "Quando levava uma escultura de cinco metros de Rui Chafes, era uma aposta. Hoje em dia já não levo peças desse tamanho", diz José Mário Brandão.

Com todas as dificuldades, espera-se que a ArCo registe a habitual afluência maciça, uma afluência que já em tempos forçou Luís Serpa a fechar o stande com fita adesiva. E se isso significar que apareçam algumas pessoas a fazer observações e perguntas tontas, tanto pior. De resto, isso cada vez acontece menos. As mais comuns são do tipo: "Isto também eu fazia." Frederico Sequeira, da Galeria Mário Sequeira (Braga), conta que o ano passado apresentou uma instalação que incluía alguns livros no chão. "Isto está um bocado desarrumado", comentou alguém. Também há quem se queixe dos preços, o que em princípio é legítimo, nesta como em qualquer outra área de negócio. Uma vez, um visitante chegou ao stande de uma galeria espanhola e, vendo um quadro de Mark Rothko na parede, perguntou: "Por curiosidade, quanto é?" Sem se voltar, a galerista respondeu: "Por curiosidade, eu não estou aqui." Ainda falando em dinheiro, consta que a mulher de um primeiro-ministro português se escandalizou por haver artistas nacionais a um preço tão alto: "Vou já dizer ao meu marido!" Também há a história daquele miúdo que, vendo uma obra de Miró, perguntou quantos anos tinha o artista quando a fez. Nem todas as galerias reagem igualmente à crise. Algumas desistem de viajar, outras dão preferência a feiras que não a ArCo. Cristina Guerra, Filomena Soares, Paulo Amaro, Graça Brandão, Mário Sequeira, Pedro Oliveira, Presença, Quadrado Azul, Carlos Carvalho, Fonseca Macedo, Fernando Santos, António Henriques são, até nova ordem, os nomes dos resistentes. De 11 a 16 de Fevereiro, lá estarão elas na ARCOmadrid 2009 à espera dos clientes. Os habituais e os outros.


Texto publicado na edição do Expresso de 7 de Fevereiro de 2009
















Feria InternacionalParque Ferial Juan Carlos I




28042 Madrid




Fone: +34 91.7225017

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

3º RAID FOTOGRÁFICO NOCTURNO de Cantanhede

domingo, 21 de dezembro de 2008

Imagens




domingo, 7 de dezembro de 2008

Novos artistas alemães













Novos artistas alemães conquistam mercado mundial da arte

Tim Eitel pinta figuras de um mundo resignado
Em vez de conceitualismo, videoarte e instalação, foi o realismo figurativo que garantiu a penetração dos novos artistas alemães, após a queda do Muro, no mercado mundial da arte.

A partir do início dos anos de 1990, o mundo experimentou o fenômeno que ficou conhecido por revolução digital. Para acompanhar o desenvolvimento dos novos meios, foram inauguradas, na Alemanha, escolas como a Academia de Arte e Mídia (KHM), em Colônia, e o Centro de Arte e Mídia (ZKM), em Karlsruhe.

No entanto, em vez do esperado desenvolvimento em direção à videoarte ou à instalação, a arte alemã, a partir da última década do século 20, foi marcada pelo ressurgimento da pintura figurativa como forma de expressão artística e pela fusão da arte com a fotografia, cujo valor de mercado passou a se igualar ao das obras de pintura.

Entre os principais representantes da nova geração de fotógrafos alemães, estão Candida Höfer, Thomas Struth, Thomas Ruff e Andreas Gursky. Na pintura, destacam-se principalmente jovens artistas da pintura figurativa, como Neo Rauch, Tim Eitel, Norbert Bisky e Sophie von Hellermann, entre outros.

Após a reunificação da Alemanha, em 1990, observou-se também o deslocamento do eixo artístico situado entre Colônia e Düsseldorf em direção ao Leste do país. Berlim despontou como pólo atraente de artistas e galerias e, com o ressurgimento da pintura figurativa realista, Leipzig tornou-se uma das principais metrópoles artísticas do país.

Melancolia pós-hedonista

Artistas alemães consagrados, como Gerhard Richter, Sigmar Polke e Rosemarie Trockel chegaram ao século 21 como os mais bem cotados artistas do mundo, segundo o ranking da revista alemã de economia Capital.

No entanto, a ascensão da nova arte alemã no mercado internacional, a partir dos anos de 1990, deveu-se, tanto na fotografia como na pintura, à preferência que o mercado de arte norte-americano passou a dar aos jovens artistas alemães.

Além do caráter representativo de lifestyle que a arte assumiu, nos últimos anos, as razões deste sucesso se encontram na reação estética provocada pela revolução digital na pintura e na fotografia e nos temas abordados pelos novos artistas.

Poucos são os fotógrafos que não trabalharam suas fotos em computadores, poucos são os pintores que não pintaram suas telas a partir de fotografias. A arte alemã da virada do século tematizou a globalização, a melancolia pós-hedonista, o esvaziamento do espaço público e a história alemã a partir de 1989.

Andreas Gursky e outros artistas

Figurativa e realista, a pintura se aproximou do Realismo Socialista, desponjando-a de qualquer ameaça intelectual. A fotografia, resgatada como expressão artística, retratou subúrbios desolados, fachadas industriais sombrias, retratos enormes e paisagens longínquas e vazias. Sobretudo os alunos de Bernd e Hilla Becher, na Academia de Belas-Artes de Düsseldorf, despontaram no mercado internacional.

Nomes como Candida Höfer, Andreas Gursky, Thomas Struth e Thomas Ruff conseguiram elevar o valor da fotografia ao das obras de pintura. Em 2007, o díptico 99 Cent II, de Andreas Gursky, foi leiloado em Londres por 1,7 milhão de libras (cerca de 2,3 milhões de euros).

Esta é uma cifra impressionante, se considerarmos que o curso de Fotografia da Academia de Belas-Artes de Düsseldorf, o primeiro da Alemanha, foi instituído somente no início dos anos de 1970 e que, até o início da década de 1980, o público especializado ainda discutia o valor artístico da fotografia colorida.

Despojada de qualquer mensagem

Entre os novos pintores, destacam-se os artistas do grupo em torno de Neo Rauch, denominado de Neue Leipziger Schule ou Nova Escola de Leipzig, oriundos da Academia de Artes Visuais de Leipzig.

Escola de Leipzig foi o nome cunhado para os artistas da cidade que expuseram na documenta 6, em 1977, cuja pintura era figurativa e engajada. Mesmo depois da queda do Muro, Arno Rink, aluno destes pintores, continuou a ensinar técnicas da pintura clássica na Academia de Artes Visuais de Leipzig. Rink formou a segunda geração da Escola de Leipzig.

Tecnicamente perfeita, mas despojada de qualquer mensagem e com motivos que lembram o Romantismo, a terceira geração da Escola de Leipzig ficou conhecida como Nova Escola de Leipzig.

Televisão, computador, internet

Entre os mais célebres representantes deste novo realismo da Academia de Artes Visuais de Leipzig, estão Neo Rauch e Tim Eitel. Em seus quadros, Rauch retrata a convivência pacífica de trabalhadores socialistas, nostálgicos postos de gasolina e figuras de história em quadrinhos. Tim Eitel aposta na contemplação serena de suas figuras realistas que parecem meditar num pano de fundo abstrato.

Norbert Bisky, que nasceu em Leipzig mas estudou em Berlim, consegue unir o homoerotismo ao Realismo Socialista ao retratar garotos louros que brincam sobre dunas.

A bávara Sophie von Hellermann, uma das poucas artistas que não pinta a partir de fotografias, mistura cenas de seu mundo pessoal com personagens da literatura, do cinema ou da história.

Estes jovens artistas incorporam a mudança de paradigma da cultura analógica para a cultura digital. Se, para alguns, sua mescla de mistério e cultura pop é motivo de críticas, para outros, é a fonte de onde bebe a nova arte. Sem ideologias, eles retratam a atualidade de um mundo resignado e sem perspectivas.

Eles mesmos são filhos da cultura de consumo pós-moderna e do capitalismo digital. Aprenderam a perceber a realidade não a partir do objeto real, mas através da televisão, do computador, da internet. Sua obra espelha o desejo de uma geração jovem – que muitos chamam de conservadora – por segurança, por ideais românticos, por laços sociais e por comunicação, em tempos de extremo individualismo.

Carlos Albuquerque

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

sábado, 22 de novembro de 2008

Ramalho Eanes: “educação pode corrigir atrasos”

Ramalho Eanes defendeu, em Santarém, que "só o investimento na educação permitirá corrigir os atrasos de Portugal, país que chegou tarde à democracia e ainda não teve tempo para gerar uma classe média empreendedora e uma sociedade civil forte, e está agora a sofrer os efeitos nefastos do deslumbramento consumista que provocou o endividamento das famílias e do Estado".
O antigo Presidente da República foi o orador convidado para o encerramento do ciclo de conferências "As raízes falam, falam as raízes, organizado pela Comissão concelhia do PS de Santarém.
A conferência quase encheu o grande auditório da Escola Superior Agrária, numa iniciativa que, mais uma vez, extravasou o âmbito partidário, para trazer para o debate e reflexão pessoas dos mais diferentes quadrantes políticos.
Ramalho Eanes falou do "papel da sociedade civil na construção da unidade europeia e na recuperação do país num quadro promissor e ameaçador da mundialização". Apontou o exemplo de Espanha que, segundo um relatório do Deutshe Bank, dentro de apenas dois anos poderá ter o mesmo valor do PIB per capita da Alemanha. "A Educação foi o factor que mais prosperidade trouxe à Espanha, com mais investimento no ensino secundário e universitário", afirmou Ramalho Eanes, sublinhando que "37 por cento dos espanhóis, entre os 25 e os 34 anos já possuem cursos superiores, comparativamente aos 20 por cento da Alemanha".
Eanes apontou igualmente os exemplos de desenvolvimento de "outros povos europeus e do Japão, que há muito perceberam que o desenvolvimento económico assenta no capital humano e não no investimento de capital ou tecnológico".
Ramalho Eanes sublinhou que "desde o 25 de Abril, Portugal progrediu muito na qualidade de vida da população e em todos os sectores, da educação à saúde, segurança social, estradas e comunicações". "Vivemos hoje numa democracia consolidada, em que não cabem golpes, não há ameaças externas, não há império a defender; temos condições agora para sermos um povo civil, pacífico, tolerante e democrático". Porém, defende que "o futuro de Portugal tem um desafio grande que é a falta de um ideal colectivo que nos motive individual e solidariamente". Considera, porém, que "esse futuro é alcançável se houver um investimento numa educação generalizada, e uma cuidada e rigorosa definição estratégica das políticas, com um empenhamento determinado e competente de todos os sectores – Estado, mercado e sociedade civil". Considera que "temos um Estado fraco desde o 25 de Abril, com governos muito fracos, muitas vezes mais preocupados com os resultados eleitorais do que com o futuro do País, e com sub-sistemas de saúde, educação e justiça que se transformaram em corporações que tendem a satisfazer os interesses dos seus elementos em lugar de desempenharem as funções sociais que lhes competem". Prevê que o desemprego vai agravar-se e, sendo um problema de todos, exige respostas do Governo que garantam a dignidade de todos".

"É urgente o despertar dos intelectuais para quebrar corporativismos"
Ramalho Eanes defende que uma sociedade civil forte depende da existência de uma burguesia endinheirada que ponha os filhos a estudar. "É urgente o despertar dos intelectuais para a participação na sociedade civil, pois são eles que conduzem à quebra dos corporarivismos que travam o desenvolvimento".
Fonte: O Ribatejo

domingo, 16 de novembro de 2008