sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Pôr do sol visto de Cantanhede

Foto José Vieira

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Arte Africana Moderna




Pinturas de Matondo Alberto


Uma exposição de pintura intitulada “A estética exegética”, do artista plástico angolano Matondo Alberto, foi inaugurada no dia 25 de Janeiro, na galeria "De Maio", na União Nacional dos Artistas Plásticos (Unap), em Luanda.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Artes Plásticas: Morreu Alice Jorge


Alice Jorge (1924-2008) começou a expôr nos anos 50 nas Exposições Gerais de Artes Plásticas, da Sociedade Nacional de Belas Artes (SNBA. Afastada do ensino secundário em 1955, foi reintegrada em 1974.
Foi bolseira da Fundação Gulbenkian em Paris e também em Lisboa para a realização de um livro sobre técnicas de gravura.
Além de se dedicar em especial à pintura e à gravura (com exposições individuais nas galerias "Diário de Notícias", São Francisco, Tempo, Alvarez, etc, e na Fundação Gulbenkian), realizou trabalhos de cerâmica e de ilustração de livros.
A III Bienal de Gravura da Amadora, em 1992, apresentou uma retrospectiva da Obra Gravada de Alice Jorge. É autora, em colaboração com Júlio Pomar (com que foi casada entre 1954 e 1961), de um dos painéis de azulejo da Av. Infante Santo, em Lisboa.
O funeral de Alice Jorge realizou-se hoje de manhã (18 de Fevereiro), no Cemitério do Alto S. João, em Lisboa.
AC. RTP

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

ARTE E MATEMÁTICA



Arte e Matemática

Angela Ancora da Luz

"A arte não reproduz o visível, mas torna visível. A essência da arte gráfica conduz facilmente, e com toda razão para a abstração. (...) Os elementos formais da arte gráfica são: pontos, energias lineares, energias planas e energias espaciais".
Paul Klee
Tornar visível significa trazer uma imagem concebida por um homem e inseri-la no universo de muitos homens. O resultado do processo criativo é exatamente este. Consciente ou inconscientemente, emotiva ou racionalmente, o ser humano produz arte. Neste procedimento, sua trajetória se desenvolveu da mimese para a abstração, ou seja, primeiramente ele contemplou a natureza, reproduziu-a e, depois, separou dela as suas formas, chegando à abstração.
Na Pré-História, os seres humanos criavam partindo da reprodução de formas que eram vitais para a sobrevivência, como os bisões que eram pintados no interior da caverna e as esculturas representando Vênus, com um grande ventre, esculpidas, preferencialmente, em pedra. Formas que registram o apelo mágico destes artistas, desejosos de materializar o objeto de suas necessidades. Mas é no Neolítico que os seres humanos conseguirão gravar, no osso ou na pedra, os símbolos abstratos de suas próprias indagações. Tais símbolos são "apresentados" intuitivamente, ou matematicamente.
No início do século XX, este desejo de abstração será consciente, como podemos perceber na afirmação de Kandinsky: "Logo uma coisa se tornou clara para mim: a representação dos objetos não precisava ter lugar na minha pintura, e na verdade, era-lhe prejudicial".
Em 1951, Max Bill foi premiado na 1ª Bienal de São Paulo com uma obra intitulada "Unidade Tripartida", na qual podemos observar seu racionalismo formalista através da lógica matemática com que ele estrutura o espaço, ao utilizar superfícies que se desenvolvem continuamente. No Brasil, o impacto da obra de Max Bill alavancou o movimento concretista. É evidente que, a esta época, já encontrávamos no Rio de Janeiro artistas como Almir Mavignier e Ivan Serpa, que estavam buscando este caminho. Nesta mesma Bienal, Serpa foi o pintor brasileiro que recebeu o prêmio de "Jovem artistas". A pintura que apresentou, intitulada "Formas", compunha-se de círculos que aparecem como figura e fundo, embasada na Teoria da Percepção.
O desejo de criar uma arte que não mais representasse, mas que pudesse tornar visível concretamente a linha de raciocínio de um artista, sinaliza o abandono da figuração.
Do século XV ao final do século XIX, o homem construiu um espaço, que hoje conhecemos como "o espaço cúbico da perspectiva renascentista". A partir dos movimentos pós-Cézanne, este espaço começará a ser desconstruído.
No século XV, o rigor matemático da cúpula de Brunelleschi, na catedral de Florença, é a certeza de uma procura na qual a regra é matemática: equilíbrio, ritmo, simetria. A sucessão de janelas marca, nas arquiteturas, o ritmo; a horizontalidade, que enquadra o edifício no campo visual do homem que passa, assegura a possibilidade de equilíbrio que se completa na exigência da simetria.
Na pintura, a horizontalidade e a forma piramidal passam a nortear a composição do artista. A regra e a norma - há uma lógica matemática que faz o artista procurar a "justa medida". As figuras serão representadas dentro de um espaço que se apresenta aos nossos olhos como "visto" através de uma janela. Alguns artistas chegavam a montar pequenas esculturas, dentro de caixas e, por um ou mais orifícios, abertos em algum lugar da caixa, passavam a observar como se comportavam aqueles elementos em relação ao espaço, que relações estabeleciam entre si e com o espaço.
O ser humano chegava à construção do espaço matemático nas artes. Até aquele momento, ele havia reproduzido a natureza usando a perspectiva aérea, em que a cor mais forte e definida aparece em primeiro plano e as mais tonalizadas vão preenchendo os planos subseqüentes, com efeitos semelhantes ao filtro atmosférico, que torna o horizonte azulado ou acinzentado. Um outro artifício para resolver o problema perspectivo do quadro era o uso da observação, conforme se comprova na pintura de Giotto e Masaccio. Finalmente, artistas como Piero della Francesca, Paolo Ucello e Andréa Mantegna vão procurar a solução exata da representação do espaço através das linhas de fuga, do ponto principal e da linha do horizonte. Isto se dará no século das grandes descobertas, quando o ser humano velejará em direção à linha do horizonte que, no entanto, permanecerá fixa, fazendo convergir para ela todas as demais linhas.
"De todas as linguagens, a dos matemáticos é a mais exata, quer se trate de equações, figuras geométricas planas, ou sólidos. Na sua procura de regras fundamentais, baseadas em princípios primários e independentes da vida diária, o homem tentou exprimir o mundo em termos matemáticos, olhando o Criador como o perfeito matemático-filósofo."
Bernard Myers
O desejo de obter a forma pura sempre estimulou o artista a pesquisar, procurando soluções. O que seria o puro? Onde encontrá-lo? A maior parte dos artistas, em todos os tempos, buscou suas respostas na matemática. Também no campo filosófico, as reflexões que investigam a pureza estão na matemática. Para Platão, as formas puras se encontravam nos cubos, cilindros, cones, esferas e outros sólidos regulares, geométricos, resistentes à adulteração do mundo sensível. Aristóteles defendia o círculo e a esfera como formas perfeitas e divinas e, também, os pitagóricos se rendiam à perfeição do círculo.
Na arte, muitos foram os que buscaram as soluções geométricas para equacionarem seus questionamentos e criarem. Mais uma vez eles reencontram a simetria e retornam ao cânone, para, mais uma vez, ainda, romperem com o modelo em busca de uma arte que abandonasse o ilusionismo da perspectiva e reafirmasse a bidimensionalidade do quadro.
A busca de uma arte que não apenas represente, oferecendo-nos a possibilidade de apenas um significado, que é aquilo que vemos, dá lugar a uma arte que permite abrir a possibilidade de significados, transformando-se em enigma ou equação que precisa ser desenvolvida mentalmente. Muitas vezes ela se apresenta com mais de uma incógnita e a solução não está no mundo visível.
"A modernidade é o transitório, o fugitivo, o contingente, a metade da arte, cuja outra metade é o eterno e o imutável."
Baudelaire
O transitório e o fugitivo, o que passa e o que se eterniza. O homem percebe a dimensão temporal da arte. Cada vez mais ele sente que precisa da idéia para ser incomum e permanecer no eterno. Até o final do século XIX, o artista sabia que não poderia prescindir da técnica. Ele tinha que conhecer, profundamente, os segredos da matéria e do suporte onde pintava; porém, naquele momento ele começa a se preocupar com os conceitos. A questão do tempo e do espaço vai ser discutida em outros moldes. O filósofo Bergson (1859-1941) elabora as suas teorias. Para ele, o tempo é "duração". Com isto, ele introduz o psíquico e se afasta do tempo "matemático". Para o filósofo, a duração é a própria realidade, é o que se vive, intuitivamente, e não somente o que se compreende através do intelecto.
Na arte, um dos exemplos mais expressivos da vontade de apreensão do tempo acontece com os futuristas. Eles exaltam o aeroplano, o carro rugidor, a máquina que conduz o homem ao futuro. Eles defendem uma estética do dinamismo. Este tempo futurizado se opõe ao passado, ilustrado pelos museus, que são considerados pelos futuristas como cemitérios, pois guardam "corpos" que não se conhecem. Cada vez mais, o homem procura fazer uma arte que não possa ser adquirida, colecionada, exibida fora de seu próprio acontecimento.
A concepção do espaço também será abalada pelas novas experiências e pelas teorias no campo da física e da matemática.
Na experiência do vivido, o homem começa a subir em balões, no final do século XIX. Mais tarde voará nos "aeroplanos" que alimentaram o sonho futurista.
Ao se elevar, o homem corta a sua relação espacial com a Terra e elimina a linha do horizonte. Ele não se desloca mais, sucessivamente, na direção do horizonte e nem apreende uma linha imutável em sua retina. A arte se torna atectônica, descola-se da Terra. O atectonismo representa uma nova concepção espacial. O homem se divorcia da linha do horizonte e parte em direção ao espaço, num novo vôo de núpcias. A desconstrução do espaço, que se mantinha desde o século XV, seria inevitável. Contudo, novas aproximações com a matemática seriam experimentadas, pois ela vai também se reformular. A matemática moderna dialoga com a arte moderna e contemporânea.
Malevicht, cujas teorias da arte começam a ser conhecidas a partir de 1914, liberta as suas formas de todas as dependências da lei da gravidade. Ele solta suas formas geométricas e as deixa "navegar" num espaço cósmico. "Minha nova pintura não pertence à Terra exclusivamente", afirmaria Malevicht, ao defender que, em sua consciência, ele sentia a tensão do homem em direção ao espaço, uma espécie de atração por se descolar da Terra. Assim, o branco de suas telas exprime o espaço cósmico, onde as formas geométricas "brincam" como elementos flutuantes. Para ele, o quadrado é a criança real, a forma suprema, símbolo da revolução da sensação pura.
Além disso, o homem percebe que a ampliação do espaço não está fora dele, mas dentro, em suas estruturas mais interiores.
"A descoberta fundamental, a que determina a verdadeira ruptura, chegou no momento em que, como no Quatrocento, os artistas descobriram que a ampliação do universo não podia continuar a ser procurada na renovação do cenário pitoresco, mas pelo contrário, em um aprofundamento de suas estruturas íntimas."
Pierre Francastel
A ampliação do universo se dá, na medida em que, por um lado, o homem descobre o espaço e destrói, paulatinamente, o espaço plástico do renascimento e, por outro, ele percebe que o incomensurável, o infinito, está dentro dele. O abstracionismo testifica o confronto do artista com uma outra realidade. Apenas a tela, ou o muro, enfim, o suporte pode apreender o real, ou seja, o pensamento do artista. Por meio de seus raciocínios ou de suas emoções, ele os registra com cores no espaço plano. O homem rompe com o ilusionismo, desfaz a janela e percebe, como afirmaria Francastel, que o mais misterioso está perto dele e não pode haver espaço mais extenso que o espírito humano e suas relações corpo e espírito. O tempo, na verdade, sou eu. Eu passo, mas digo que o tempo passa. É a duração bergsoniana que vai imprimindo novas relações.
No campo da Física, a teoria da Relatividade, de Einstein, vai nos confrontar com um novo conhecimento. O homem pode estabelecer a relação em cadeia que ocorre depois que o primeiro átomo se desintegra, mas não pode antecipar qual deles será o primeiro. Einstein se indaga: "Deus não joga dados!", mas o enigma do acaso desafia sua compreensão. Contudo, as questões pesquisadas por físicos e matemáticos estarão, também, na discussão de artistas como Piet Mondrian, por exemplo.
"A plástica precisa do universal é inconcebível sem a plástica do puro equilíbrio, e o equilíbrio é inconcebível sem a dualidade. É a dualidade que expressa a relação. Se apenas se representa o 'uno', de qualquer maneira que se faça, ele aparecerá individualmente. A plástica precisa do universal não é a representação de um ou de outro: é a representação da relação equilibrada de um e de outro, por sua vez."
Piet Mondrian
Em Piet Mondrian, o "preciso" é perseguido com uma preocupação asséptica. Em sua plástica do puro equilíbrio ele toma uma árvore na natureza e, através de uma equação, em que as relações sensíveis entre o que ele vê e o que pensa vão sendo estabelecidas até se resolverem numa tela plana, em que retas se encontram em ângulo reto. Aparecem em suas pinturas, no máximo, as três cores básicas: vermelho, azul e amarelo, além de, no máximo, três "não cores": preto, cinza e branco. É o primado do equilíbrio obtido na dualidade, vertical e horizontal. Neste caso, "a criança real" é o ângulo reto.
Por outro lado, se o enigma do acaso desafia físicos e matemáticos, impedindo-os de reconhecer, a priori, o átomo que iniciará o processo de desintegração, na arte, também vamos encontrar os que procuram o acaso, como detonador de seus movimentos em cadeia mais interiorizados, conforme se observa nos dadaístas, cujo desejo plástico resultava na excitação do riso, na curiosidade e na cólera, conforme ensinava Tristan Tzara. Aliás, é dele a receita para se fazer um poema dada. Tzara recomenda que se recorte de um jornal um artigo qualquer (do tamanho que você quiser dar ao poema), a seguir, se recortem as palavras e que sejam colocadas num saco. Após serem agitadas, suavemente, o poeta deverá retirá-las, uma após outra, escrevendo-as na seqüência em que saírem, para comporem um poema dada, embora incompreendido do público. O acaso como detonador de um processo criador; de uma reação em cadeia, que poderá levar ao riso ou a cólera o leitor e fruidor da obra.
Finalmente, no campo da física, a teoria do caos vem neutralizar o discurso das verdades absolutas, procurando explicar a realidade dentro de uma dimensão espaço-temporal limitada. Na arte, pintores, como Pollock, procuram a dimensão espaço-temporal da tela, estendida no chão, onde o pintor a invade, deixando a tinta escorrer em drippings imprevisíveis. Tintas automotivas, colheres e bastões nos lugares dos pincéis e um novo tempo, que se estende apenas durante a ação do artista. O resultado se eterniza no plano da tela, quando a mesma procura um outro espaço, o da contemplação do espectador. Assim, arte & matemática se aproximam, não só em propostas, raciocínios e lógicas; não apenas no rompimento das cadeias, na procura e investigação de conceitos, na busca da interioridade em que o fim e o princípio se encontram, mas, sobretudo, numa comum estrutura estética.
Referências bibliográficas
BERNADAC, Marie-Laure et alli. Suprematisme et Constructivisme. Paris: Centre National de Documentation Pédagogique, 1979.
DE FUSCO, Renato. História da Arte Contemporânea. Lisboa: Editorial Presença, 1988.
FALABELA, Maria Luiza. História da arte e estética: da mimesis à abstração. Rio de Janeiro: Elo Editora e Distribuidora Ltda, 1987.
FRANCASTEL, Pierre. Pintura e Sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 1990.
GASSET, José Ortega y. A desumanização da arte. São Paulo: Cortez Editora, 1991.
GEIGER, Anna Bella. COCCHIARALE, Fernando. Abstracionismo geométrico e Informal . Rio de Janeiro: FUNARTE, 1987.
KLEE, Paul. Sobre a arte moderna e outros ensaios. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.
MONDRIAN, Piet. Realidad natural y Realidad Abstracta. Madrid: Editorial Debate, 1989.
MORA, José Ferrater. Dicionario de Filosofia. Madrid: Alianza Editorial, S.A., 1981.
REEVES, Hubert. Malicorne. Reflexiones de un observador de la naturaleza. Barcelona: Emecé Editores, S.A., 1992.
SHENBERG, Mario. Pensando a arte. São Paulo: Nova Stella, 1988.
NOTAS:
Professora de História da Arte e de História, Teoria e Crítica de Arte dos cursos de Graduação e Pós-Graduação da Escola de Belas Artes; Diretora da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro; Mestrado em Filosofia, na área de Estética/IFCS/UFRJ e Doutorado em História Social, na área de Cultura/IFCS/UFRJ; autora dos livros Anna Letycia. São Paulo, Edusp, 1999; A Fabulação Trágica de Portinari na Fase dos Retirantes. Rio de Janeiro, IFCS/UFRJ, 1985. Artigos em revistas especializadas e catálogos de exposições.




quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Alberto Carneiro



Tem 70 anos e expõe a sua arte há mais de quarenta, em Portugal e no estrangeiro. Vive na terra onde nasceu, na aldeia do Coronado, Trofa, envolvido pela natureza original e vigorosa de um vale entre o Douro e o Minho. «A Natureza sonha nos meus olhos desde a infância», diz Alberto Carneiro, o artista plástico que tem vivido com a natureza uma relação íntima, dialogante e de mútua revelação: olha a terra, os vimes, os troncos, as raízes e as pedras para descobrir-lhes o que ainda lá não está, e redescobrir-se, ser humano, mostrando-o ao mundo.

«Perante a obra o espectador completa-a na medida em que a re-faz sua», escreve Bernardo Pinto de Almeida no álbum Alberto Carneiro – Lição de Coisas. É uma magnífica monografia editada no âmbito do «Prémio de Artes Casino da Póvoa 2007», que recentemente distinguiu o artesão da natureza, cuja arte, em época de urgência pelo respeito ambiental, é uma lição maior.
No valor de 30.000 euros, o «Prémio de Artes Casino da Póvoa» está na sua segunda edição, tendo distinguido na anterior o incontornável Nikias Skapinakis, que kaminhos referenciou (ver artigo relacionado). Para além da presente Monografia, uma vez mais com a chancela da Campo das Letras em parceria com o Casino da Póvoa, o Prémio incluiu também a Exposição Antológica do autor – Manifesto –, que esteve patente na Cooperativa Árvore, no Porto.

Alberto Carneiro – Lição de Coisas é um álbum de luxo com 242 páginas, com oito capítulos temáticos e a Biografia de Alberto Carneiro, antecedidos de uma majestosa Introdução. Está repleto de fotografias de alta definição de desenhos, projectos de esculturas, exposições e instalações do artista, tudo enquadrado pela excelência do texto do Historiador de Arte e Professor Catedrático Bernardo Pinto de Almeida, incansável na interpretação e divulgação da arte que por cá se faz, e a quem, por tudo isto, a Cultura portuguesa deve muitíssimo.

Nas antigas filosofias orientais, Taoísmo, Zen e no pensamento de Lao-Tsé, Alberto Carneiro encontrou o processo de construção da sua mandala, o caminho da reflexão interior, a busca da sua consciência e iluminação que aplicou no acto criativo: uma prática filosófica «que requer profunda iniciação e que se liga com o conhecimento do corpo e da mente e da sua inter-relação, bem como a relação destes com o cosmos de que somos também nós manifestações a um nível microcósmico», escreve Bernardo Pinto de Almeida.

Designando a obra do artista como «política ou ecologia do sensível», que não investe «na transformação do mundo, mas na transformação da própria consciência», Pinto de Almeida aponta-lhe consequências maiores: «proporcionar ao espectador não um lugar passivo mas um lugar activo, em que a obra se lhe chegue a revelar como um caminho de iluminação da sua própria consciência, instrumento com que pode, por sua vez, actuar sobre a obra.».

Actuando sobre a paisagem numa intervenção estética, o artista transforma o objecto-natural numa segunda natureza; assim, refere o texto: «o artista (a arte)» é «um mediador entre natureza primeira, a natureza-natural, e a natureza segunda, artificial, que é a verdadeira natureza do ser humano».

Neste projecto de encontros do homem com naturezas, sempre em busca da sua identidade, estão as composições O Canavial: memória-metamorfose de um corpo ausente, 1968, Uma floresta para os teus sonhos, 1970, Um campo depois da colheita para deleite estático do nosso corpo, (1973-76), com palha de centeio ou trigo e de feno, Os sete rituais estéticos sobre um feixe de vimes na paisagem, 1975, entre muitas outras apresentadas, de forma minudente, neste álbum.

«O teu corpo reflectido nesta obra como imagem transforma-se em arte na percepção estética de ti mesmo», escreveu Alberto Carneiro no aforismo que acompanha a composição «Meu Corpo Árvore». Com efeito, os planos da consciência, o «vigor orgânico» das esculturas talhadas na madeira, a emoção estética do corpo, água, vento e fogo inscritos na madeira ou na pedra provocam no espectador estranheza e surpresa perante a originalidade e o mistério da luz experimentada.

Imprescindível, o presente álbum é um subsídio para a compreensão da obra do artista, esclarece as obras mais enigmáticas de um percurso criativo assim explicado pelo próprio artista: «Afinal saí pelo meu corpo. Corpo e mente. Unidades de corpo. Ela nele e ele por ela. Desenvolvimentos para o cosmos. (…) Pegar na montanha, na árvore, moldá-las em matéria arte e inscrever nela os gestos da memória do corpo sobre a terra – todos os caminhos, todas as viagens, todas as mudanças, todos os saberes, todas as inquietações…».

04-02-2008 Teresa Sá Couto

Nikias Skapinakis






EXPOSIÇÃO

A Arte maior de Nikias Skapinakis



«Nikias Skapinakis – Uma pintura desalinhada» é o título do magnífico álbum de luxo dedicado àquele nome maior das artes plásticas portuguesas, de ascendência grega, mas nascido em Lisboa em 1931, cidade onde vive e trabalha. Galardoado com o 1ºprémio de Artes Plásticas do Casino da Póvoa de Varzim, o maior do país no valor de 30 mil euros, entregue pela ministra da Cultura no passado sábado dia 16 de Dezembro, o artista tem neste livro mais uma grande homenagem.

Nikias, que em 2004 foi também galardoado com Prémio Amadeu de Sousa Cardoso, disse que «o papel do pintor termina no quadro. O que acontece depois é do domínio das circunstâncias». Dita a genialidade do pintor que a sua pintura desalinhada surja esculpida nesta jóia editorial a chegar às melhores livrarias do país, e daí acessível a todos.
«A pintura, quanto a mim, basta-se a si própria e exige uma espécie de dedicação apaixonada – senão, é melhor fazer outra coisa», disse Nikias Skapinakis numa entrevista ao JL. O presente livro – consequência do carácter democrático da Arte, que a retira do elitismo das Galerias –, contribui para iluminar aquela dedicação apaixonada; a abordagem crítica de Bernardo Pinto de Almeida, especialista em Teoria e História da Arte e actual administrador da Fundação de Arte Moderna e Contemporânea – Colecção Berardo, possibilita-nos o enquadramento da vasta obra do pintor, um empenhado de toda a vida, distribuído em dez capítulos: «Nikias, 55 anos depois», «O lirismo expressionista e a consciência da Modernidade», «Figuração versus para-figuração», «A segunda série para-figurativa: das paisagens de “Vale dos Reis” à expressão do desenho», «O ponto metafísico», «A contenção monocromática», «A apologia da cor: A série dos cartazes», «Retratos verdadeiros e falsos retratos», «O desenho» e «A recuperação dos grafitti e as “Cortinas Mirabolantes”.

Segue-se um último capítulo dedicado à Biografia e Bibliografia do artista, coligem-se alguns textos de intervenção de Nikias veiculados por diversas fontes jornalísticas e que constam do Catálogo da Exposição “Prospectiva” realizada no Museu de Arte Contemporânea da Fundação de Serralves. Inclui-se, ainda, uma entrevista ao pintor, supra referenciada, editada no Jornal de Letras (JL), em Setembro de 2005, altura em que foi distinguido com o Prémio Amadeu de Sousa Cardoso.

«Se bem me lembro, o que caracterizava o Estado Novo era o tédio. À parte aspectos pontuais, a tragédia veio depois e não terá ainda terminado. Mas eu tinha como ponto de honra não perder a alegria de viver, isto é, não consentir que ma roubassem. José Gomes Ferreira resume talvez isso quando escreveu sobre mim: “amava os sabores do sistema e era anti-fascista”», disse Nikias em comentário a uma série de retratos da série melancólica, onde se inclui o «Tertúlia», de 1960 (na imagem à esquerda).

Se o pintor soube retratar como poucos esses sinais sociológicos caracteristicamente portugueses, a sua pintura assinala-se pelo constante movimento, numa estimulante invenção e reinvenção que o levou à procura de «um cada vez mais nítido domínio da cor» (pintura «O Pedido de Tréguas», de 1997, 2ª imagem à direita), a penetrar noutras dimensões da linguagem e exploração cromática. Uma pintura não abstracta, mas sim metafísica cujo diálogo se encontra neste livro de partilha e que é, também, uma homenagem à Cultura Portuguesa.

nota:
A edição, exclusivamente patrocinada pelo Casino da Póvoa e realizada em co-edição com a editora Campo das Letras, inicia uma colecção de livros de Arte associada ao Prémio de Arte Casino da Póvoa.

Nikias Skapinakis – Uma pintura desalinhada, Bernardo Pinto de Almeida; Editora Campo das Letras e Casino da Póvoa; Porto, 2006
18-12-2006 Teresa Sá Couto